quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A mulher de trinta anos - capítulo I

Olá, meninas!

Que tal iniciarmos a leitura, a qual me inspirou a publicar neste blog? Semanalmente postarei uma parte da obra, a fim de que possamos ao terminarmos de ler, comentar e expor nossas emoções.

Boa leitura!!!




Honoré de Balzac A Mulher de trinta anos Tradução: José Maria Machado Revisão da Tradução: Osmar Portugal Filho EDITORA CLUBE DO LIVRO São Paulo 1988 © Copyright 1988: Editora Clube do Livro Ltda. Todos os direitos reservados pela Fundador: Mário Graciotti Editor: Nelson dos Reis Assistentes Editoriais: Bel Ribeiro Luiz Baggio Neto Projeto Gráfico e Capa: Luiz Trigo Ilustração da Capa: Detalhe do óleo sobre tela Retrato da Senhora Henrioí, de Renoir Dados de Catalogação na Publicação (C Internacional (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Balzac, Honoré de, 1799-1850



A MOÇA

 No princípio do mês de abril de 1813, houve um domingo cuja manhã prometia um desses dias radiosos em que os parisienses vêem, pela primeira vez no ano, as ruas sem lama e o céu sem nuvens. Pouco antes do meio-dia, uma carruagem puxada por dois fogosos cavalos desembocava na rua de Rivoli pela rua Castiglione e parava por detrás de várias outras, estacionadas junto da grade novamente aberta ao centro do terraço dos Feuillants. A veloz carruagem era dirigida por um homem de aspecto preocupado e doentio; seus grisalhos cabelos mal lhe cobriam o crânio amarelado e tornavam-no precocemente velho; entregou as rédeas ao lacaio que, a cavalo, seguia a carruagem, e desceu para tomar nos braços uma jovem, cuja beleza atraiu a atenção dos ociosos que passeavam no terraço. Ao se pôr de pé para fora da carruagem, a delicada mulher deixou-se complacentemente agarrar pela cintura e passou os braços em volta do pescoço do seu guia, que a depôs no passeio sem amarrotar a guarnição do seu vestido de repes verde. Um amante não teria tido tanto cuidado. O desconhecido devia ser pai dessa criança, que, sem lhe agradecer, travou familiarmente seu braço e arrastou-o para o jardim. O velho pai notou os olhares maravilhados de alguns rapazes, e a tristeza de seu rosto desapareceu por um momento. Embora tivesse ultrapassado havia muito a idade em que os homens devem contentar-se com os falaciosos prazeres que a vaidade produz, ele sorriu. - Pensam que você é minha mulher - disse ao ouvido da jovem, recompondo-se e caminhando com uma lentidão que a desesperou. Parecia mais envaidecido pela filha e gozava, tal vez mais do que ela, os olhares que os curiosos lançavam aos pezinhos bem calçados, à deliciosa cintura desenhada por um corpinho de rendas e ao viçoso pescoço que um colarinho bordado não ocultava por completo. Os movimentos do andar erguiam por instantes a saia da jovem e deixavam ver acima das botinas a forma de uma perna finamente modelada por uma meia de seda transparente. Por isso, mais de um transeunte passou adiante do par, a fim de admirar ou tornar a ver o rosto juvenil e moldurado por finos cabelos castanhos, e cuja brancura era realçada tanto pelos reflexos do cetim rosa de seu elegante chapéu como pelo desejo e impaciência que transpareciam no semblante dessa encantadora criatura. Uma doce malícia animava seus belos olhos negros e amendoados, de sobrancelhas bem arqueadas e compridas pestanas. A vida e a mocidade ostentavam os seus tesouros naquele rosto vivido e naquele busto, gracioso ainda, não obstante o cinto então usado sob o peito. Insensível às homenagens, a jovem olhava com uma espécie de ansiedade para o palácio das Tulherias, a meta, sem dúvida, do seu alvoroçado passeio. Faltavam quinze para o meio-dia. Apesar da hora matutina, algumas senhoras, que teriam desejado mostrar- se em lindas toilettes, voltavam do palácio, não sem lhe dirigir um olhar aborrecido, como se estivessem arrependidas de haver chegado demasiado tarde para apreciar um espetáculo almejado. Algumas palavras, que haviam escapado ao mau humor dessas formosas passeantes desapontadas e que a jovem desconhecida ouvira, inquietaram-na sobremodo. O ancião observava, com um olhar mais curioso que zombeteiro, os sinais de impaciência e receio que se refletiam no gracioso rosto da sua companheira, e fazia-o talvez com demasiado cuidado para não se lhe notar qualquer intenção paternal. Esse domingo era o décimo-terceiro do ano de 1813. Dois dias depois, Napoleão partia para aquela fatal campanha, durante a qual ia perder sucessivamente Bèssieres e Duroc, ganhar as memoráveis batalhas de Lutzen e de Bautzen, ver-se traído pela Áustria, Saxônia, Baviera, por Bernadotte, e disputar a terrível batalha de Leipzig. A magnífica parada comandada pelo imperador devia ser a última daquelas que excitaram por tanto tempo a admiração dos parisienses e dos estrangeiros. A vetusta guarda ia executar pela última vez as sábias manobras, cuja pompa e precisão maravilharam, algumas vezes, até mesmo esse gigante, que se preparava então para o seu duelo com a Europa. Um sentimento triste levava as Tulherias uma população brilhante e curiosa. Cada um parecia adivinhar o futuro, e talvez pressentia que mais de uma vez a imaginação teria de retraçar o quadro dessa cena, quando esses tempos heróicos da França adquirissem, como hoje, cores quase fabulosas. - Vamos mais depressa, meu pai! - dizia a moça com ar travesso, arrastando o velho. - Ouço os tambores. - São as tropas que entram nas Tulherias - respondeu o velho. - Ou que desfilam ... Vejo toda a gente voltar!- replicou a jovem com um mau-humor infantil que fez o pai sorrir. - A parada só começa ao meio-dia e meia - disse o velho, quase correndo atrás da impaciente filha. Vendo-se o movimento que ela imprimia ao braço direito, dir-se-ia que assim acelerava o passo. A sua mãozinha, bem enluvada, amarrotava impacientemente um lenço e semelhava-se ao remo de um barco que sulca as ondas. O ancião sorria por momentos, mas de vez em quando certa preocupação entristecia-lhe o rosto magro. Seu amor por aquela encantadora criatura tanto o fazia admirar o presente como temer o futuro. Parecia dizer intimamente: “Ela é feliz hoje; será sempre?”. Porque os velhos geralmente tendem a turvar com seus pesares o futuro dos jovens. Quando o pai e a filha chegaram ao peristilo do pavilhão em cujo topo flutuava a bandeira tricolor e por onde os passantes seguem do jardim das Tulherias para o Carrousel, os guardas gritaram-lhes: - Não se passa mais! A jovem pôs-se na ponta dos pés, e pôde ver uma profusão de damas enfeitadas que atravancavam os dois lados da velha arcada em mármore por onde de via passar o imperador. - Bem vê, meu pai, viemos muito tarde! A expressão de tristeza que se lia no seu rosto traía a importância que lhe merecia assistir àquela revista. - O melhor, Júlia, é irmos embora; decerto você não vai querer ser pisada. - Fiquemos, meu pai. Daqui eu ainda posso ver o imperador; se ele tivesse morrido durante a campanha, eu jamais poderia vê-lo. O pai estremeceu ao ouvir essas palavras egoístas; a filha tinha lágrimas na voz; ele fitou-a e julgou notar sob as pálpebras baixas algumas lágrimas causadas menos pelo desespero que por um desses primeiros desgostos, cujo segredo é fácil a um velho pai adivinhar. De súbito, Júlia ruborizou e soltou uma exclamação, cujo sentido não foi compreendido nem pelas sentinelas, nem pelo ancião. A esse grito, um oficial que ia do pátio para a escada voltou-se vivamente, avançou até a arcada do jardim, reconheceu a jovem por um momento oculta pelos grandes bonés de pêlo dos granadeiros e revogou imediatamente, para ela e para o pai, a ordem que ele próprio dera; depois, sem dar a mínima importância aos murmúrios da elegante multidão que enchia a arcada, atraiu docemente para si a encantadora mocinha. - Já não me admiro da cólera nem da impaciência de Júlia, pelo fato de você estar de serviço - disse o ancião ao oficial, num tom entre sério e zombeteiro. - Senhor duque- tornou o jovem -, se desejam conseguir um bom lugar não nos percamos em conversas. O imperador não gosta de esperar, e eu fui encarregado pelo marechal de dar o aviso. Enquanto falava, tomava com certa familiaridade o braço de Júlia e levava-a rapidamente para o Carrousel. Júlia notou com espanto uma multidão enorme que se comprimia no pequeno espaço entre as paredes cinzentas do palácio e os marcos unidos por correntes que cercavam grandes quadrados ensaibrados no meio do pátio das Tulherias. O cordão de sentinelas, formado para deixar uma passagem livre ao imperador e ao seu estado-maior, só a muito custo continha a massa impaciente e ruidosa como um enxame. - Será mesmo uma maravilha? - perguntou Júlia, sorrindo. - Cuidado! - advertiu o oficial, que agarrou Júlia pela cintura e, erguendo-a com força e rapidez, levou-a para junto de uma coluna. Sem esse brusco movimento, a sua irrequieta parenta seria pisada pelo cavalo branco, ajaezado com uma sela de veludo verde e ouro, que o mameluco de Napoleão segurava pela rédea, quase sob a arcada, a dez passos atrás de todos os cavalos que esperavam os oficiais superiores, companheiros do imperador. O jovem colocou o pai e a filha perto do primeiro marco da direita à frente da multidão, e, por um sinal de cabeça, recomendou-os aos dois velhos granadeiros, entre os quais se achavam. Quando o oficial voltou ao palácio, a felicidade e a alegria transpareciam no seu rosto, alterado um momento pelo susto do perigo que Júlia correra; esta tinha-lhe apertado a mão misteriosamente, fosse para lhe agradecer a proteção que acabava de lhe prestar ou para lhe dizer: “Enfim, vou vê-lo!” Inclinou até meigamente a cabeça em resposta à saudação respeitosa que, assim como ao pai, lhe fez o oficial antes de desaparecer com presteza. O velho, que parecia ter deixado de propósito os dois jovens juntos, permanecia numa atitude pensativa, um pouco atrás da filha; observava-a, porém, de soslaio e tentava inspirar-lhe uma falsa segurança, mostrando-se absorto na contemplação do esplêndido espetáculo que o Carrousel oferecia. Quando Júlia dirigiu ao pai o olhar de um discípulo com receio do mestre, o velho respondeu-lhe até com um sorriso de benevolente alegria; mas o seu olhar perscrutador seguira o oficial até a arcada e não perdera um gesto sequer daquela rápida cena. - Que belo espetáculo! - exclamou Júlia em voz baixa, apertando a mão do pai. O aspecto pitoresco e grandioso que o Carrousel apresentava naquele momento fazia com que essa exclamação fosse repetida por milhares de espectadores, em cujos rostos se estampava a mais viva admiração. Uma outra ala da multidão, tão compacta como aquela em que se achavam o ancião e sua filha, ocupava, numa linha paralela ao palácio, o estreito espaço que fica ao longo da grade do Carrousel. Essa multidão acabava de desenhar nitidamente, pela variedade das toilettes das senhoras, o imenso quadrilátero que formam as construções das Tulherias e a grade recém-colocada. Os regimentos da velha guarda que iam ser passados em revista enchiam esse vasto terreno, onde formavam em frente ao palácio imponentes linhas azuis de dez filas de fundo. Um pouco mais longe do recinto e no Carrousel, achavam-se também em linhas paralelas vários regimentos de infantaria e cavalaria, prontos a desfilar sob o arco triunfal que orna o centro da grade e no topo do qual se viam, então, os magníficos cavalos de Veneza. A banda de música dos regimentos, colocada sob as galerias do Louvre, estava escondida pelos lanceiros polacos de serviço. Grande parte do quadrado coberto de areia achava-se vazio como uma arena preparada para os movimentos desses corpos silenciosos, cujas massas dispostas com a simetria da arte militar refletiam os raios solares nos focos triangulares de dez mil baionetas. A brisa, agitando os penachos dos soldados, fazia-os ondear como as árvores fustigadas numa floresta sob um vento impetuoso. Esses velhos grupos, mudos e brilhantes, ofereciam mil contrastes de cores, devido à diversidade dos uniformes, dos ornamentos, das armas, das agulhetas. Esse quadro imenso, miniatura de um campo de batalha antes do combate, achava-se poeticamente emoldurado, com todos os seus acessórios e detalhes bizarros, pelas altas edificações majestosas, cuja imobilidade parecia imitada pelos chefes e soldados. O espectador involuntariamente comparava esses muros de homens aos muros de pedra. O sol da primavera, que lançava profusamente sua luz sobre os muros brancos, construídos na véspera, e sobre os muros seculares, iluminava plenamente aqueles inúmeros rostos crestados que atestavam os perigos passados e aguardavam gravemente os perigos futuros. Os coronéis de cada regimento passavam de momento a momento à frente desses homens heróicos. Por trás das colunas cerradas das tropas matizadas de prata, de azul, de púrpura e de ouro, os curiosos podiam ver as bandeirolas tricolores presas nas lanças de seis infatigáveis cavaleiros polacos, que, semelhantes aos cães conduzindo um rebanho por um campo, voltejavam incessantemente entre as tropas e os curiosos a fim de impedir que estes invadissem o pequeno espaço de terreno que lhes era concedido junto à grade imperial. Todos aqueles movimentos levavam a crer que se estava no palácio da Bela Adormecida. A brisa da primavera, agitando o pêlo dos bonés dos granadeiros, atestava a imobilidade dos soldados, assim como o surdo murmúrio da multidão acusava o seu silêncio. De raro em raro, o ruído de um tambor, um leve toque dado por inadvertência numa caixa e repetido pelos ecos do palácio imperial, assemelhava-se aos trovões ainda longínquos que anunciam a tempestade. Aquela multidão à espera continha um entusiasmo indescritível. A França ia apresentar suas despedidas a Napoleão, na véspera de uma campanha cujos perigos eram previstos pelo último dos cidadãos. Tratava-se agora, para o império francês, de ser ou não ser. Tal pensamento parecia animar a multidão civil e a militar, que se apinhava, igualmente silenciosa, no recinto onde pairavam a águia e o gênio de Napoleão. Esses soldados, esperança da França, esses soldados, sua última gota de sangue, eram também objeto da inquieta curiosidade dos espectadores. Entre a maior parte dos assistentes e dos militares, dizia-se um adeus que seria talvez eterno; porém, todos os corações, mesmo os mais hostis ao imperador, dirigiam ardentes votos ao céu pela glória da pátria. Os homens mais cansados da luta travada entre a Europa e a França haviam todos depostos os seus ódios ao passar sob o arco do triunfo, compreendendo que, no dia do perigo, Napoleão era toda a França. O relógio do castelo bateu meia hora. Neste momento, cessou o rumor da multidão, e o silêncio tornou-se tão profundo que poderia ouvir-se a voz de uma criança. O ancião e sua filha, que pareciam viver pelos olhos, distinguiram então um ruído de esporas e um tinir de espadas que ecoaram sob o sonoro peristilo do castelo. Um homenzinho bastante gordo, de uniforme verde, calças brancas e botas de montaria, apareceu de súbito, tendo na cabeça um chapéu de três bicos tão prestigioso como a sua própria pessoa; flutuava-lhe no peito a larga fita vermelha da Legião de Honra, e da cintura pendia-lhe um espadim. O homem foi visto por todos, e ao mesmo tempo, de todos os pontos da praça. No mesmo instante, rufaram os tambores, as duas orquestras começaram por uma frase cuja expressão guerreira foi repetida por todos os instrumentos, desde a flauta mais suave até o maior dos tambores. A esse belicoso apelo, as almas estremeceram, as bandeiras saudaram, os soldados apresentaram armas num movimento unânime e regular que agitou as espingardas desde a primeira à última fila do Carrousel. As vozes de comando repetiram-se de fila em fila como um eco. Gritos de “Viva o imperador!” foram levantados pela multidão entusiasmada. Enfim, tudo estremeceu, tudo se moveu, tudo se agitou. Napoleão montara o cavalo. Esse movimento dera vida àquelas massas silenciosas, voz aos instrumentos, vôo às águias e às bandeiras, emoção a todos os rostos. As paredes das altas galerias daquele velho castelo pareciam gritar também: “Viva o imperador!”. Não foi algo de humano, foi uma magia, um simulacro do poder divino, ou melhor, uma fugidia imagem desse fugidio reino. O homem cercado de tanto amor, dedicação, entusiasmo, votos, para quem o sol dispersara as nuvens do céu, permaneceu no seu cavalo, três passos à frente do pequeno esquadrão dourado que o seguia, tendo o grão-marechal à sua esquerda, e à direita o marechal de serviço. Em meio a tantas emoções que ele excitara, nenhum traço do seu rosto parecia alterado. - Oh! meu Deus, sim. Em Wagran no meio do fogo, em Moscou entre os mortos, ele está sempre tranqüilo como o Batista. Essa resposta a inúmeras interrogações era dada pelo granadeiro, que se achava ao lado da jovem. Júlia conservou-se durante um momento absorta na contemplação daquele rosto, cuja serenidade indicava tão grande segurança de poder. O imperador avistou a senhorita de Chatillonest e inclinou-se para Duroc, dizendo-lhe uma curta frase que fez sorrir o grão-marechal. As manobras começaram. Se até então a mocinha partilhara a sua atenção entre o rosto impassível do imperador e as linhas azuis, verdes e vermelhas das tropas, neste momento ocupou-se quase exclusivamente, em meio a movimentos rápidos e regulares executados pelos velhos soldados, de um jovem oficial que corria a cavalo entre as linhas moventes e voltava com uma atividade infatigável para o grupo, à frente do qual brilhava o simples Napoleão. Esse oficial montava um admirável cavalo negro e distinguia-se entre aquela luzidia multidão pelo belo uniforme azul-celeste dos oficiais de ordenança do imperador. Os bordados de sua farda brilhavam tão vivamente ao sol, e o penacho da barretina, estreito e comprido, lançava tais reflexos, que os espectadores por certo o compararam a um fogo-fátuo, a uma alma visível encarregada pelo imperador de animar, de conduzir esses batalhões, cujas armas ondeantes faiscavam chamas quando, a um sinal único dos seus olhos, se quebravam, se reuniam, se agitavam como as águas de um sorvedouro, ou passavam pela sua frente como as vagas longas, retas e altas que o oceano em cólera atira sobre as praias. Terminadas as manobras, o oficial de ordenança, correndo a toda brida, parou junto ao imperador para esperar as suas ordens. Nesse momento, achava-se ele a vinte passos de Júlia, em frente do grupo imperial, numa atitude assaz parecida com a que Gérard deu ao general Rapp no quadro da Batalha de Austerlitz. Foi então permitido à mocinha admirar o seu bem-amado em todo o seu esplendor militar. O coronel Victor d’Aiglemont, com apenas trinta anos, era alto, bem-feito, esbelto; e os seus felizes dotes físicos eram dignos de admiração, principalmente, quando empregava sua força em subjugar um cavalo, cujo dorso elegante e ágil parecia vergar-se sob o seu peso. O rosto másculo e trigueiro possuía esse encanto inexplicável que uma perfeita regularidade de feições comunica a semblantes juvenis. A fronte era larga e alta. Os olhos de fogo, sombreados por espessas sobrancelhas e orlados de compridas pestanas, desenhavam-se como duas ovais brancas entre duas linhas negras. O nariz oferecia a graciosa curva de um bico de águia. O vermelho dos lábios era realçado pelas sinuosidades do inevitável bigode preto. Suas faces amplas e fortemente coloridas ofereciam tons castanhos e amarelos que denotavam extraordinário vigor. Seu rosto, um desses em que a bravura estampou seu distintivo, oferecia o tipo que o artista hoje procura quando pensa representar um dos heróis da França imperial. O cavalo, coberto de suor e cuja cabeça agitada revelava extrema impaciência, as duas patas dianteiras afastadas e colocadas numa mesma linha, agitava as longas crinas da sua bela cauda, e a sua dedicação oferecia uma imagem material da que o seu dono manifestava pelo imperador. Vendo o bem-amado tão ocupado em procurar os olhares de Napoleão, Júlia experimentou um sentimento de ciúme, pensando que ele ainda não havia olhado para ela. De súbito, o soberano pronuncia uma palavra. Victor esporeia os flancos do cavalo e parte a galope; mas a sombra de um marco projetada na areia assusta o animal, que se espanta, recua e empina tão bruscamente que o cavaleiro parece estar em perigo. Júlia solta um grito, empalidece; todos fitam-na com curiosidade; ela não vê ninguém: os seus olhos estão fixos no cavalo demasiado fogoso que o oficial castiga enquanto corre a transmitir as ordens de Napoleão. Esses quadros estonteantes absorviam Júlia de tal modo que, sem perceber, se agarrara ao braço do pai, a quem revelava involuntariamente seus pensamentos pela pressão mais ou menos viva dos seus dedos. Quando Victor escapou de ser derrubado do cavalo, a mocinha agarrou-se ainda mais violentamente ao pai, como se ela mesma estivesse em perigo de cair. O velho contemplava com dolorosa e sombria inquietação o rosto da filha, e sentimentos de piedade, de ciúme e até de pesar deslizaram em todas as suas rugas contraídas. Mas quando o brilho inusitado dos olhos de Júlia, o grito que soltara e o movimento convulsivo dos seus dedos acabaram de lhe desvendar um amor secreto, por certo ele teve algumas tristes revelações do futuro, por que seu rosto tomou então uma expressão sinistra. Nesse momento, a alma de Júlia parecia ter-se confundido com a do oficial. Um pensamento mais cruel que todos aqueles que haviam assustado o ancião crispou lhe as feições do rosto doloroso, quando viu d’Aiglemont trocar, ao passar na sua frente, um olhar de inteligência com Júlia, que tinha os olhos úmidos e estava vivamente corada. E bruscamente levou a filha para o jardim das Tulherias. - Mas, meu pai - dizia ela -, ainda há na praça do Carrousel regimentos que vão manobrar. - Não, minha filha, as tropas já estão desfilando. - Parece-me que se engana, meu pai. O senhor d’Aiglemont deve tê-las mandado avançar... - Mas, minha filha, sinto-me mal e não quero demorar-me. Júlia não teve dificuldade em acreditar no pai, quando olhou para seu rosto abatido por inquietações paternais. - Sofre muito, meu pai? - perguntou Júlia com indiferença, tão grande era a sua preocupação. - Cada dia que passa não é para mim um favor? - respondeu o ancião. - Vai ainda afligir-me falando da sua morte? Estava tão alegre! Quer fazer o favor de afugentar suas mórbidas idéias? - Ah! - exclamou o pai, soltando um suspiro. - Criança cheia de mimo! Os melhores corações são às vezes bem cruéis. Consagrar-lhe a nossa vida, não pensar senão em você, preparar seu bem-estar, sacrificar nossos gostos às suas fantasias, adorá-la, dando lhe até nosso sangue, isso não significa nada? Às vezes você aceita tudo com indiferença. Para obter sempre seu sorriso e seu amor desdenhoso, seria necessário ter o poder de Deus. Pois então chega um outro! Um amante, um marido que nos leva seu coração. Júlia, atônita, fitou o pai, que caminhava lentamente, lançando-lhe turvos olhares. - Você se oculta até de nós - tornou o velho -, e talvez de você mesma... - Que diz, meu pai? - Parece-me, Júlia, que você tem segredos para mim. Você está amando - tornou vivamente o ancião, notando o rubor que subira ao rosto da filha. - Ah!, eu esperava vê-la fiel a seu velho pai até a minha morte; esperava conservá-la junto de mim, feliz e radiante! Admirá-la como estava agora. Ignorando seu destino, teria podido acreditar num futuro tranqüilo para você; mas agora é impossível ter esperança de felicidade na sua vida, porque você ama mais o coronel do que o primo. Já não posso ter dúvidas. - E por que me havia de ser proibido amá-lo? - indagou ela com viva expressão de curiosidade. - Ah!, minha Júlia, você não me compreenderia - replicou o pai suspirando. - Mas diga - tornou Júlia com um gesto de amuo. - Pois bem, minha filha, escute-me. As moças sonham muitas vezes com uns seres nobres encantadores, criaturas perfeitamente ideais, e assim forjam quimeras acerca dos homens, dos sentimentos e do mundo; depois atribuem inocentemente a um caráter as perfeições com que sonham e nele confiam; amam no homem da sua escolha esse ente imaginário; porém, mais tarde, quando já não podem fugir à desgraça, a aparência enganadora que embelezaram, o seu primeiro ídolo, enfim, transforma-se num esqueleto odioso. Júlia, eu preferia que você amasse um velho a vê-la amar o coronel. Ah!, se você pudesse adivinhar o que acontecerá daqui a dez anos, faria justiça à minha experiência. Conheço Victor: a sua alegria é sem espírito, alegria de caserna, não tem talento e é perdulário. É um desses homens que o céu criou para comer e digerir quatro refeições por dia, dormir, amar a primeira que lhe aparece e bater-se. Não compreende a vida. O seu bom coração, porque o tem, levá-lo-á talvez a dar a bolsa a um desgraçado, a um camarada; porém, é um indiferente, e não possui essa delicadeza de coração que nos torna escravos da felicidade de uma mulher; e ignorante, egoísta... e muita coisa mais. - Mas, meu pai, ele necessariamente há de ter espírito e inteligência para ter chegado a ser coronel. - Minha querida, Victor permanecerá coronel toda a sua vida. Ainda não encontrei ninguém que fosse digno de você - tornou o ancião com certo entusiasmo. Calou-se por um momento, contemplou a filha e acrescentou: - Mas, minha pobre Júlia, você ainda é muito jovem, muito fraca, muito delicada para suportar os desgostos e as responsabilidades do casamento. D’Aiglemont foi estragado com mimos pelos pais, assim como você por sua mãe e por mim. Como esperar que vocês dois possam se entender, com vontades diferentes cujas tiranias serão inconciliáveis? Será ou vítima ou tirano. Qualquer dessas alternativas produz igual soma de males na vida de uma mulher. Contudo, você é meiga e modesta, curvar-se-á a princípio. Enfim, você tem - continuou com a voz alterada - uma delicadeza de sentimentos que ficará desconhecida, e então Não acabou, as lágrimas embargaram-lhe a voz. - Victor - retomou, após uma pausa - há de ferir as singelas qualidades de sua alma juvenil. Eu conheço os militares, minha querida filha; vivi nos exércitos. É raro que o coração dessa gente possa triunfar dos hábitos produzidos, ou pelas desgraças em meio às quais vivem, ou pelos azares de sua vida aventureira. - Quer então, meu pai - replicou Júlia num tom meio sério, meio zombeteiro -, contrariar meus sentimentos, casar-me a seu gosto e não ao meu? - Casar-lhe a meu gosto! - exclamou o pai com um gesto de surpresa. - Eu, de quem logo você não mais ouvirá a voz tão amigavelmente zangada. Sempre reconheci que os filhos atribuem a um sentimento pessoal os sacrifícios que lhes impõem os pais! Case com Victor, minha Júlia. Um dia você deplorará amargamente a sua nulidade, a sua falta de ordem, o seu egoísmo, a sua falta de delicadeza, a sua inépcia em amor e mil outros pesares que você sofrerá por sua causa. Então lembre-se de que sob estas árvores a voz profética de seu velho pai ressoou em vão aos seus ouvidos! O velho calou-se. Tinha surpreendido a filha meneando a cabeça com ar de dúvida. Ambos se dirigiram para a grade onde a carruagem os esperava. Durante esse trajeto silencioso, a jovem examinou furtivamente o rosto do pai, e pouco a pouco foi-se tornando séria. A profunda dor gravada na fronte inclinada do ancião causou-lhe vivíssima impressão. - Prometo-lhe, meu pai - disse Júlia com uma voz meiga e alterada -, que não tornarei a falar de Victor, sem que veja destruídas as prevenções que nutre contra ele. O velho fitou a filha com pasmo. Duas grossas lágrimas deslizaram-lhe ao longo das faces enrugadas. Não pôde beijar a filha à vista da multidão que os rodeava, porém apertou-lhe ternamente a mão. Subindo à carruagem, todos os pensamentos melancólicos haviam desaparecido completamente. A atitude um pouco triste de sua filha o inquietava bem menos que a alegria inocente, cujo segredo escapara a Júlia durante a revista. Nos primeiros dias do mês de março de 1814, pouco menos de um ano depois dessa revista do imperador, uma caleça rodava pela estrada de Amboise a Tours. Ao deixar a abóbada verde das nogueiras sob as quais se ocultava o correio de Frilliere, o carro seguiu com tal rapidez que depressa chegou à ponte construída sobre o Cise, na embocadura desse rio com o Loire, e ali parou. Acabava de quebrar-se um tirante, devido ao movimento impetuoso que o cocheiro, sob a ordem de seu patrão, imprimira aos quatro possantes cavalos. Assim, por obra do acaso, as duas pessoas que se achavam na caleça tiveram ocasião de contemplar um dos mais belos recantos que as sedutoras margens do Loire apresentam. À direita o viajante abrange com um olhar todas as sinuosidades do Cise, que se arrasta, como uma serpente prateada, pela erva dos prados aos quais os primeiros rebentos da primavera davam então as cores da esmeralda. À esquerda surge o Loire em toda a sua magnificência. Os raios do sol cintilavam sobre aquela vasta extensão d’água. A cada passo se sucediam ilhas verdejantes como as pedras engastadas de um colar. Do lado oposto do rio, os mais lindos campos da Touraine desenrolam os seus tesouros numa extensão imensa. Ao longe, o olhar só encontra como limites as colinas do Cher, cujos cimos desenhavam naquele momento linhas luminosas sobre o transparente azul do céu. Através da tênue folhagem das ilhas ao fundo do quadro, Tours parece, como Veneza, emergir do seio das águas. Os campanários da sua velha catedral elevam-se nos ares, onde se confundiam então com as criações fantásticas de algumas nuvens esbranquiçadas. Além da ponte sobre a qual parara o veículo, o viajante descobre na sua frente, ao longo do Loire até Tours, uma cadeia de rochedos, que por uma fantasia da natureza parece ter sido colocada para servir de dique ao rio, cujas vagas minam incessantemente a pedra, espetáculo que sempre maravilha o viajante. A aldeia de Vouvray acha-se como que enterrada nos desfiladeiros desses rochedos, que começam a formar um cotovelo em frente da ponte do Cise. De Vouvray até Tours, as medonhas sinuosidades dessa colina são habitadas por uma população de vinhateiros. Em mais de um local existem três patamares de casas, abertas na rocha e reunidas por perigosas escadas talhadas na própria pedra. Por cima de um telhado, uma moça de saia vermelha corre ao seu jardim. A fumaça de uma chaminé se eleva entre as cepas e as parras nascentes de uma vinha. Homens cavam campos perpendiculares. Uma velha tranqüilamente sentada sobre um pedaço de rochedo fia à sombra de uma amendoeira, e vê passar os viajantes a seus pés, sorrindo do susto deles. As fendas do solo preocupam-na tanto quanto as ruínas de um velho muro, cujos alicerces são retidos apenas pelas raízes retorcidas de um manto de hera. O martelo dos tanoeiros faz ressoar as cúpulas das adegas. Enfim, a terra está por toda a parte cultivada e fecundada, lá onde a natureza recusou terra à indústria humana. Assim, nada é comparável, no curso do Loire, ao rico panorama que a Touraine apresenta aos olhos do viajante. O tríplice quadro dessa cena, cujos aspectos são apenas esboçados, oferece à alma um desses espetáculos que ela inscreve para sempre na sua recordação; e, quando um poeta o desfrutou, evoca-o muitas vezes em sonhos para reconstruir seus fabulosos efeitos românticos. No momento em que a caleça chegou à ponte do Cise surgiram algumas velas brancas entre as ilhas do Loire, dando assim nova harmonia àquele aprazível lugar. O odor dos salgueiros que orlam o rio mesclava seus perfumes penetrantes aos da brisa úmida. Os pássaros faziam ouvir seus prolixos concertos; o canto monótono de um guardador de cabras juntava-lhes um tanto da sua melancolia, enquanto os gritos dos marinheiros anunciavam uma agitação distante. Lânguidos vapores, caprichosamente parados ao redor das árvores esparsas, imprimiam uma última graça nessa paisagem. Era a Touraine em toda a sua glória, a primavera em todo o seu esplendor. Essa parte da França, a única que os exércitos estrangeiros não deviam perturbar, era no momento a única que se achava tranqüila: dir-se-ia que ela desafiava a invasão. Uma cabeça coberta por um gorro de quartel apareceu à portinhola da caleça assim que esta parou; em seguida, um impaciente militar saltou para a estrada disposto a invectivar o cocheiro. A perícia com que esse nativo da região consertava o tirante partido tranqüilizou o coronel conde d’Aiglemont, que voltou para junto do carro, estendendo os braços como para esticar os músculos adormecidos; bocejou, admirou a paisagem, e tocou no braço de uma jovem cuidadosamente envolta numa capa forrada de peles. - Acorde, querida - disse o militar com a voz um tanto rouca -; olhe essa terra. E magnífica! Júlia pôs a cabeça fora da caleça. Um capuz forrado de peles de marta cobria-lhe a cabeça, e as pregas da capa em que se envolvia ocultavam-lhe tão bem as formas que apenas se lhe via o rosto. Júlia d’Aiglemont já não se parecia com a jovem que há pouco corria alegre e feliz à revista das Tulherias. O rosto, sempre delicado, havia perdido as cores rosadas e frescas. Os cabelos negros, um pouco desfrisados pela umidade da noite, faziam sobressair a brancura mate da tez, cuja vivacidade parecia adormecida. Seus olhos, contudo, tinham um brilho sobrenatural; mas, abaixo das pálpebras, certos tons violeta se faziam notar sobre o rosto fatigado. Examinou com olhar indiferente os campos do Cher, o Loire e as suas ilhas, Tours e os altos rochedos de Vouvray; depois, sem querer olhar para o vale encantador do Cise, recolheu-se ao fundo da caleça e disse, num tom de voz que acusava extrema fraqueza: - Sim, é admirável. Ela havia, como se vê, para a sua desgraça, triunfado sobre o pai. - Não gostaria de viver aqui, Júlia? - Oh!, aqui ou ali - disse com indiferença. - Você sente alguma coisa? - perguntou-lhe o coronel d’Aiglemont. - Absolutamente nada - respondeu com momentânea vivacidade. Contemplou o marido sorrindo e acrescentou: - Sinto vontade de dormir. Ouviu-se de repente o galope de um cavalo. Victor d’Aiglemont largou a mão da esposa e voltou a cabeça para o cotovelo que a estrada forma naquele lugar. No momento em que Júlia deixou de ser vista pelo coronel, a expressão de alegria que ela dera ao rosto pálido desapareceu por completo. Não experimentando nem o desejo de tornar a ver a paisagem nem a curiosidade de saber quem era o cavaleiro que galopava com tal ímpeto, voltou a encostar-se ao canto da caleça, e seus olhos fixaram-se sem curiosidade na garupa dos cavalos. Tinha um ar tão estúpido como pode ser o de um camponês bretão ouvindo o sermão do seu vigário. Um rapaz montando um cavalo puro-sangue surgiu de repente de um pequeno bosque de choupos e de espinheiros em flor. - É um inglês - disse o coronel. - Meu Deus! Sim, meu general - replicou o cocheiro. - E da raça daqueles que querem comer a França, segundo dizem por aí. O desconhecido era um desses viajantes que se encontravam no continente quando Napoleão mandou prender todos os ingleses, como represália ao atentado cometido contra o direito das gentes pelo ministério de Saint-James, na ocasião da ruptura do Tratado de Amiens. Submetidos ao capricho do poder imperial, nem todos esses prisioneiros ficaram nas residências onde tinham sido encontrados, nem naquelas que tiveram primeiro a liberdade de escolher. A maior parte dos que habitavam então a Touraine havia sido para aí transferida de diversos pontos do império, onde sua permanência parecera comprometer os interesses da política continental. O jovem prisioneiro, que passeava naquele momento o seu tédio matinal, era uma vítima do poder burocrático. Havia dois anos que uma ordem emanada do Ministério das Relações Exteriores o arrancara ao clima de Montpellier, onde a ruptura da paz o surpreendera enquanto procurava curar-se de uma doença de peito. Logo que o jovem reconheceu um militar na pessoa do conde d’Aiglemont, apressou-se a evitar-lhe os olhares, voltando assaz bruscamente a cabeça para os prados do Cise. - Todos esses ingleses são insolentes como se o mundo lhes pertencesse - murmurou o coronel. - Felizmente, Soult vai dar-lhes o merecido castigo. Quando o prisioneiro passou em frente da caleça, lançou ali um olhar; não obstante a rapidez, pôde admirar a expressão de melancolia que dava um encanto indefinível ao rosto pensativo da condessa. Há muitos homens cujo coração se comove poderosamente pela simples aparência de sofrimento numa mulher, para eles, a tristeza parece ser uma promessa de constância no amor. Inteiramente absorta na contemplação de uma almofada, Júlia não prestou atenção nem ao cavalo nem ao cavaleiro. O tirante fora rapidamente consertado com toda a solidez. O conde subiu para o veículo. O cocheiro tratou de recuperar o tempo perdido e conduziu com rapidez os dois viajantes por um caminho ao longo dos rochedos, em meio aos quais amadurecem os vinhos de Vouvray e de onde se erguem bonitas casas. Vêem-se, ao longe, as ruínas da tão célebre abadia de Marmoutiers, retiro de São Martinho. - Que pretenderá de nós esse diáfano milorde? - exclamou o coronel, voltando a cabeça a fim de assegurar-se de que o cavaleiro, que desde a ponta do Cise seguia a caleça, era o jovem inglês. Como o desconhecido não cometia a menor inconveniência pela qual pudesse ser censurado, o coronel contentava-se em lançar-lhe um olhar ameaçador, mas não pôde, apesar da sua involuntária inimizade, impedir-se de notar a beleza do cavalo e o garbo do cavaleiro, O rapaz possuía um desses rostos britânicos, cuja cor é tão suave, a pele tão fina e branca, que somos tentados por vezes a supor que pertencem ao corpo delicado de uma donzela. Era louro, alto e magro. Notava-se no seu traje esse requinte de cuidado e asseio que distingue os elegantes da grave Inglaterra. Dir-se-ia que ele ruborizava mais de pudor que de prazer ao aspecto da condessa. Uma vez apenas Júlia ergueu os olhos para o estrangeiro, mas foi por assim dizer obrigada pelo marido, que queria fazê-la admirar as pernas de um cavalo de raça pura. Os olhos de Júlia encontraram, então, os do tímido inglês. A partir desse momento, o cavaleiro, em vez de seguir ao lado da caleça, caminhava a alguns passos de distância. A condessa mal olhou para o desconhecido Não notou nenhuma das perfeições que lhe eram atribuídas, e encostou-se de novo ao fundo da caleça, depois de ter feito um leve movimento de pálpebras, concordando com a opinião do marido. O coronel adormeceu novamente, e os dois esposos chegaram a Tours sem terem trocado uma só palavra e sem que o panorama encantador, sempre renovado, atraísse uma só vez o olhar de Júlia. Enquanto o marido dormitava, a senhora d’Aiglemont contemplou-o várias vezes. Numa delas, um solavanco fez-lhe cair sobre o regaço uma medalha que usava, suspensa ao pescoço por um cordão de luto, e apareceu-lhe de súbito o retrato do pai. Então as lágrimas, até ali contidas, correram-lhe pelas faces. O inglês viu, talvez, os traços úmidos e brilhantes que o pranto deixou por um momento no rosto pálido da condessa, mas que o ar prontamente secou. Encarregado pelo imperador de transmitir as suas ordens ao marechal Soult, que devia defender a França da invasão dos ingleses no Béarn, o coronel d’Aiglemont aproveitava aquela missão para subtrair a mulher aos perigos que então ameaçavam Paris e a conduzia a Tours para a casa de uma velha parenta. Logo a carruagem cruzou a ponte, na Grande-Rua, e parou em frente do antigo palácio onde, havia tempos, residia a condessa de Listomère-Landon. A condessa era uma dessas lindas velhas senhoras de tez pálida, cabelos brancos, que têm um sorriso fino e se vestem e se penteiam seguindo uma moda desconhecida. Retratos setuagenários do século de Luís XV, essas mulheres são quase sempre carinhosas e meigas, como se ainda amassem; menos piedosas que devotas e ainda menos devotas do que parecem; bastante perfumadas, falando bem, conversando melhor, e rindo mais de uma recordação do que de um gracejo. O modernismo as desagrada. Quando uma idosa criada de quarto anunciou à condessa (pois cedo reaveria seu título) a visita de um sobrinho que não via desde o começo da guerra da Espanha, ela depressa tirou os óculos, fechou a Galeria da antiga corte, seu livro favorito; depois, encontrou certa agilidade para chegar à escadaria no momento em que os dois subiam os degraus. A tia e a sobrinha lançaram uma à outra rápido olhar. - Bom dia, minha tia - exclamou o coronel abraçando a condessa com precipitação. - Trago-lhe uma jovem para cuidar. Venho confiar-lhe o meu tesouro. A minha Júlia não é vaidosa nem ciumenta; tem a doçura de um anjo... Mas espero que não se estrague aqui... - Atrevido! - respondeu a condessa, lançando- lhe um olhar brincalhão. Com uma graça amável, se ofereceu para beijar Júlia, que permanecia pensativa e parecia mais embaraçada que curiosa. - Vamos, pois, travar conhecimento, minha queridinha? - perguntou a condessa. - Não se assuste muito comigo; sempre que me encontro com gente nova, procuro não ser velha. Antes de entrar no salão, a condessa, segundo o hábito da província, dera ordens para o almoço dos seus dois hóspedes; porém, o conde interrompeu a eloqüência da tia, dizendo-lhe muito seriamente que só podia dispensar-lhe o tempo que o postilhão levaria para mudar os cavalos. Portanto, dirigiram-se imediatamente à sala de jantar, e o coronel teve apenas o tempo necessário para narrar à tia os acontecimentos políticos e militares que o obrigavam a pedir-lhe abrigo para sua jovem esposa. Entrementes, a tia olhava alternadamente para o sobrinho, que falava sem ser interrompido, e para a sobrinha, cuja palidez e tristeza pareceram-lhe causadas por aquela separação, e dizia intimamente: “Ah! Estes amam-se de verdade”. - Adeus, minha querida - disse ele beijando a mulher, que o seguira até o pátio. - Oh!, Victor, deixe-me acompanhar-lhe um pouco mais longe - pedia Júlia, carinhosa -, não queria deixar-lhe... - Você pensa nisso? - Bem, adeus - replicou Júlia -, já que você quer assim. A carruagem desapareceu. Você ama muito o meu pobre Victor? - perguntou a condessa à sobrinha, interrogando-a com um desses olhares perscrutadores que as velhas lançam às jovens. - Ai!, minha senhora - respondeu Júlia -, não é preciso amar um homem para desposá-lo? Essa última frase foi acentuada por um tom de ingenuidade que traía ao mesmo tempo um coração puro ou mistérios profundos. Ora, seria bem difícil a uma mulher, amiga de Duclos e do marechal de Richelieu, não procurar adivinhar o segredo daquele casal. A tia e a sobrinha, ainda junto ao portão, achavam-se entretidas a ver a caleça que se afastava. Os olhos da condessa não exprimiam o amor como a marquesa o compreendia. A boa senhora era uma provençal, e suas paixões tinham sido violentas. - Deixou-se, então, fascinar pelo patife do meu sobrinho? - perguntou à sobrinha. A condessa estremeceu involuntariamente, porque o tom e o olhar da velha senhora pareciam-lhe anunciar um profundo conhecimento do caráter de Victor. A senhora d’Aiglemont, inquieta, mostrou uma dissimulação inábil, primeiro refúgio dos corações ingênuos e sofredores. A senhora de Listomère contentou-se com as respostas de Júlia; mas pensou com prazer que sua solidão ia ser distraída por alguma intriga amorosa que a divertiria. Quando a condessa d’Aiglemont se achou num grande salão forrado de tapeçarias emolduradas por frisos dourados, sentada em frente de um bom fogo, abrigada da corrente de ar por um biombo chinês, a sua tristeza não conseguiu dissipar-se. Era difícil poder nascer a alegria entre decorações antigas e móveis seculares. Contudo, a jovem parisiense sentiu certo prazer naquela profunda solidão e no silêncio da solene província. Depois de ter trocado algumas palavras com aquela tia, a quem escrevera apenas uma carta logo após o casamento, ficou silenciosa como se estivesse ouvindo uma ópera. Foi só passadas duas horas de um sossego digno da Trappa que Júlia notou a sua indelicadeza para com a tia; lembrou-se de que só lhe havia dirigido respostas frias e indiferentes. A velha senhora tinha respeitado o capricho da sua sobrinha com esse instinto cheio de graça que caracteriza a gente de outro tempo. Nesse momento, a velha marquesa tricotava. Tinha-se ausentado, com efeito, por diversas vezes, para se ocupar de um certo quarto verde, onde a condessa devia instalar-se e onde os criados da casa colocavam a bagagem; mas voltara depois para seu lugar numa grande poltrona, e olhava de soslaio para a jovem sobrinha. Envergonhada por se ter abandonado à sua irresistível meditação, Júlia tentou fazer-se perdoar zombando de si mesma. - Minha querida filha, nós conhecemos a dor das viúvas respondeu a tia. Seria preciso ter quarenta anos para adivinhar a ironia que os lábios da velha senhora exprimiam. No dia seguinte, a condessa achava-se com melhor disposição; conversou. A senhora de Listomère não mais desesperou de tornar sociável aquela esposa novata, que primeiro considerara como uma selvagem e estúpida; falou-lhe sobre as belezas da região, dos bailes e das casas que podiam freqüentar. Todas as perguntas da marquesa foram, durante esse dia, outras tantas ciladas que ela, por antigo hábito da corte, não pôde deixar de fazer à sobrinha, a fim de lhe adivinhar o caráter. Júlia resistiu durante alguns dias a todos os pedidos que lhe fez a tia para procurar distrações fora de casa. Não obstante o desejo que tinha a velha senhora de mostrar orgulhosamente a sua linda sobrinha, acabou por renunciar a apresentá-la à sociedade. A condessa achara um pretexto para sua solidão e tristeza no desgosto que lhe causara a morte do pai, pelo qual ainda estava de luto. Passados oito dias, a velha senhora encheu-se de admiração pela doçura angélica, a graça modesta, o espírito indulgente de Júlia, e interessou-se desde então profundamente pela misteriosa melancolia que consumia aquele coração. A condessa era uma dessas mulheres que nasceram para ser amáveis e que parecem trazer a felicidade consigo. A sua companhia tornou-se tão agradável e preciosa à senhora de Listomêre que esta se apaixonou pela sobrinha e desejava nunca deixá-la. Um bastou para estabelecer entre as duas uma amizade eterna. A velha senhora notou, não sem surpresa, as mudanças que se operaram na fisionomia da senhora d’Aiglemont. As cores vivas que lhe abrasavam o rosto desvaneceram se insensivelmente e a tez ia se tornando pálida. Enquanto perdia seu esplendor primitivo, Júlia ia ficando menos triste. Por vezes a boa senhora despertava na sua jovem parenta ímpetos de alegria, logo contidos por um pensamento importuno. Adivinhou ela que não era a recordação do pai, nem a ausência de Victor, a causa da profunda melancolia que lançava um véu na existência da sua sobrinha; depois acorreram-lhe suspeitas tão más que lhe foi difícil determinar a verdadeira causa do mal, pois a verdade talvez só se encontra por acaso. Um dia, enfim, Júlia fez brilhar aos olhos da tia espantada um esquecimento completo do casamento, uma loucura de criança travessa, uma candura de espírito, urna digna da infância. Que esse espírito delicado, e por vezes tão profundo, que distingue as jovens francesas. A senhora de Listomère resolveu, então, sondar os mistérios daquela alma, cuja extrema naturalidade equivalia a uma dissimulação impenetrável. Aproximava-se a noite, as duas senhoras estavam sentadas junto de uma janela que dava para a rua. Júlia tornara-se de novo pensativa. Passava nesse momento um cavaleiro. - Aí tem uma das suas vítimas - disse a velha marquesa. A senhora d’Aiglemont encarou a tia, manifestando um espanto misturado com certa inquietação. - É um jovem inglês, um fidalgo, Artur Ormond, filho mais velho de lorde Grenville. A sua história é interessante. Veio a Montpellier em 1802 esperando que o ar desse lugar, para onde foi mandado, pelos médicos, o curaria de uma doença de peito da qual podia morrer. Como todos os seus compatriotas, foi preso por Bonaparte na ocasião da guerra, porque esse monstro não pode nunca deixar de guerrear. Como distração, o inglês começou a estudar a sua doença, que julgavam mortal. Insensivelmente, tomou gosto pela anatomia, pela medicina, apaixonou-se por essas artes, o que é extraordinário num homem de qualidades; mas também o regente dedicou-se à química! Em resumo, o senhor Artur fez espantosos progressos, mesmo para os professores de Montpellier; o estudo consolou-o do cativeiro, e ao mesmo tempo ele se curou radicalmente. Diz-se que esteve dois anos sem falar, respirando raramente, dormindo numa estrebaria, bebendo leite de uma vaca da Suíça e alimentando-se de agriões. Desde que se encontra em Tours, não procurou ninguém, é orgulhoso como um pavão, mas a minha querida fez decerto a sua conquista, pois de fato não é por minha causa que ele passa debaixo das nossas janelas duas vezes por dia desde que você está aqui... Com certeza, ele a ama. Essas últimas palavras despertaram a condessa como por magia. Sorriu de um modo que surpreendeu a marquesa. Longe de testemunhar essa satisfação instintiva que qualquer mulher, por mais severa que seja, sente ao saber que há alguém infeliz por sua causa, o olhar de Júlia foi apagado e frio, O seu rosto indicava um sentimento de repulsa, quase de horror. Essa proscrição não era aquela que uma mulher amorável fulmina sobre o mundo inteiro em proveito de um único ente: ela sabe então rir e gracejar; não, Júlia tinha, nesse instante, a atitude de alguém que sente ainda a recordação de um perigo que a fez sofrer muitíssimo. A tia, convencida de que a sua sobrinha não amava o sobrinho, ficou estupefata ao descobrir que também não amava outro. Tremeu ao ter de reconhecer em Júlia um coração desiludido, uma jovem a quem a experiência de um dia, de uma noite talvez, havia bastado para avaliar a nulidade de Victor. - Se ela o conhece, tudo está dito - pensou -; o meu sobrinho virá talvez a sofrer os inconvenientes do matrimônio. Propunha-se converter Júlia às doutrinas monárquicas do século de Luís XV; mas algumas horas mais tarde soube, ou antes, adivinhou a situação bastante vulgar na sociedade a que a condessa devia a sua extrema melancolia. Júlia, que de súbito se tornara pensativa, retirou-se para o quarto mais cedo que de costume. Depois de a criada de quarto tê-la ajudado a se despir, a jovem senhora conservou-se perto da lareira, recostada numa poltrona de veludo amarelo, móvel antigo, tão favorável para os aflitos como para os venturosos; chorou, suspirou, pensou; depois puxou para junto de si uma mesa pequena, procurou papel e pôs-se a escrever. As horas passaram rapidamente, a confidência que Júlia fazia nessa carta parecia custar-lhe muito, cada frase provocava longas meditações; de repente, a jovem prorrompeu em lágrimas. Nesse momento, os relógios davam duas horas. Inclinou para o peito a cabeça tão pesada como a de um agonizante; depois, quando a ergueu, Júlia viu aparecer de súbito a tia, como uma personagem que se tivesse despregado da tapeçaria que cobria as paredes. - Que tem, minha filha? - indagou a velha marquesa. - Por que vela até tão tarde, e por que chora aqui sozinha, na sua idade? Sentou-se sem cerimônia perto da sobrinha e devorou com os olhos a carta começada. - Escrevia a seu marido? - Por acaso sei onde ele está? - replicou a condessa. A tia pegou o papel e leu. Trouxera consigo os óculos, havia nisto premeditação. A inocente criatura deixou-a ler a carta, sem fazer o mínimo reparo. Não era nem por falta de dignidade nem por qualquer sentimento de culpa secreta que lhe roubasse toda a energia. Não; a tia encontrou-a ali num desses momentos de crise em que a alma está como afrouxada, em que tudo se torna indiferente, o bem como o mal, o silêncio como a confiança. Semelhante a uma jovem virtuosa que acabrunha o amante de impropérios, mas que à noite se encontra tão triste, tão abandonada, que o deseja e quer um coração onde deponha os seus sofrimentos, Júlia deixou violar, sem proferir uma palavra, o sigilo que a delicadeza imprime numa carta aberta, e ficou pensativa enquanto a marquesa lia. “Minha querida Luísa, por que se há de reclamar tantas vezes o cumprimento da promessa mais imprudente que se possam fazer duas jovens ignorantes? Muitas vezes você se pergunta, escreve-me, indagando por que há seis meses não respondo às suas perguntas. Se não compreende meu silêncio, hoje conhecerá talvez a causa, sabendo os mistérios que estou traindo. Os teria sepultado no fundo do meu coração, se você não me avisasse do seu próximo casamento. Vai casar, Luísa. Esta notícia fez-me tremer. Pobre criança, case; depois, dentro de alguns meses, um dos seus mais amargos pesares será causado pela recordação do que já fomos, quando uma noite, em Ecouen, subindo as montanhas mais altas, contemplamos o formoso vale que tínhamos a nossos pés para admirar o sol poente, cujos reflexos nos envolviam. Sentamos-nos num rochedo e caímos num devaneio a que sucedeu a mais doce melancolia. Você foi a primeira a pensar que aquele sol distante nos falava do futuro. Éramos então curiosas e tontas! Você recorda todas as nossas extravagâncias? ‘Beijemo-nos como dois amantes’, dizíamos. Juramos ambas que a primeira que casasse narraria fielmente à outra esses segredos do himeneu, essas alegrias que as nossas almas juvenis nos afiguravam tão deliciosas. Essa noite será o seu desespero, Luisa. Naquele tempo você era nova, formosa, despreocupada, se não feliz; um marido irá torná-la, em poucos dias, o que eu já sou: feia, doente e velha. Dizer-lhe como me sentia altiva, vaidosa e feliz por desposar o coronel Victor d’Aiglemont seria uma loucura! E como havia de dizer agora? Já nem me lembro sequer de mim. E poucos instantes, a minha infância tornou-se como um sonho. A minha atitude durante o dia solene, que consagrava um vínculo cuja extensão ignoro, não foi isenta de censuras. Meu pai mais uma vez tentou reprimir a minha alegria, que se tornava inconveniente, e as minhas palavras, que revelavam malícia, justamente por que não a tinham. Fazia mil criancices com o véu nupcial, o vestido e as flores. Quando me vi sozinha, à noite, no aposento a que fora conduzida com grande aparato, pensei pregar uma peça a Victor e, enquanto o esperava, sentia palpitações de coração semelhantes às que noutro tempo se apoderavam de mim nesses dias solenes de 31 de dezembro, quando, sem ser vista, me introduzia no salão em que estavam reunidos os brinquedos. Meu marido procurou-me ao entrar no quarto, e o riso sufocado que fiz ouvir sob as musselinas que me serviam de esconderijo foi a última nota dessa suave alegria que animou os brinquedos da nossa infância...”. Quando a velha marquesa terminou a leitura dessa carta que, em vista do seu começo, devia conter observações bem tristes, colocou lentamente os óculos sobre a mesa e, segurando a carta, fitou a sobrinha com seus olhos verdes, cujo brilho não fora amortecido pelos anos. Minha filha - disse -, uma senhora casada, escrevendo deste modo a uma menina, falta às conveniências... - Era o que eu pensava - respondeu Júlia, interrompendo sua tia -, e tinha vergonha de mim, enquanto a senhora lia... - Se à mesa uma iguaria não nos agrada, não devemos por isso enjoar as outras pessoas, minha filha - replicou a velha senhora com bondade -, principalmente quando, desde Eva até nós, o casamento foi considerado uma coisa tão excelente... Já não tem mãe? - perguntou a marquesa. A condessa estremeceu, depois ergueu docemente a cabeça e disse: - Tenho lamentado mais de uma vez a sua falta, de um ano para cá. Mas fiz mal em não seguir os conselhos de meu pai, que não queria Victor para genro. Olhou para a tia, e um frêmito de alegria lhe secou as lágrimas quando viu o ar de bondade que animava aquele velho rosto. Estendeu a mão à marquesa, que parecia pedir-lhe; e, quando seus dedos se estreitaram, as duas mulheres acabaram por se compreender. - Pobre órfã! - acrescentou a marquesa. Essas palavras foram para Júlia um último raio de luz. Pareceu-lhe ouvir ainda a voz profética do pai. - As suas mãos ardem! Estão sempre assim? - perguntou a bondosa velha. - Há apenas sete ou oito dias que a febre me deixou - respondeu Júlia. - Tinha febre e nada me dizia! - Há um ano que a tenho - disse Júlia com certa ansiedade pudica. - Assim, meu anjinho - tornou a tia -, o casamento não tem sido para você mais que um longo sofrimento? A condessa não ousou responder; mas fez um gesto afirmativo que traía todas as suas angústias. - E infeliz, então? - Oh!, não, minha tia. Victor me ama com idolatria, e eu o adoro; ele é tão bom! - Sim, ama-o; mas foge dele, não é verdade? - Sim... Algumas vezes. Ele me procura constantemente. - Quando se vê sozinha, não lhe perturba a idéia de que ele a surpreenda? - É verdade, minha tia. Mas amo-o muitíssimo, asseguro-lhe. - Não se acusa, em segredo, de não saber ou não poder partilhar os seus prazeres? Não lhe acode, por vezes, a idéia de que o amor legítimo é mais difícil de ser vivido do que uma paixão criminosa? - Oh! E isso mesmo - disse Júlia chorando. - Adivinha, pois, tudo onde só encontro enigmas? Os meus sentidos estão adormecidos, não tenho idéias; em suma, vivo dificilmente. Minha alma acha-se oprimida por uma indefinível apreensão que paralisa meus sentimentos e me lança num torpor contínuo. Sinto me sem voz para queixar-me, sem palavras para exprimir minha dor. Sofro e tenho vergonha de sofrer, vendo Victor feliz com o que me mata. - Tudo isso são criancices, insignificantes! - exclamou a tia, cujo rosto emagrecido animou-se de repente por um alegre sorriso, reflexo das alegrias da sua mocidade. - E a senhora também se ri! - disse com desespero a condessa. - Fui assim mesmo - replicou prontamente a marquesa. - Agora que Victor a deixou só, não se sente melhor e mais tranqüila; sem prazeres, mas sem sofrimentos? Júlia abriu os olhos espantados. - Enfim, meu anjo, adora Victor, não é assim? Mas preferiria ser sua irmã a ser sua mulher, e não se dá bem com o casamento. - E isso mesmo, minha tia. Mas por que sorri? - Oh!, tem razão, pobre criança; não há nada de alegre em tudo isto. O seu futuro seria bem negro se eu não a tomasse sob minha proteção e se a minha velha experiência não soubesse adivinhar a causa bem inocente dos seus desgostos. Meu sobrinho não merecia ser tão feliz, o tolo! No reinado do nosso bem-amado Luís XV, uma jovem esposa que se encontrasse na situação em que a vejo depressa teria castigado o marido por proceder como um reles mercenário. Os militares às ordens desse tirano imperial são todos uns vis ignorantes. Tomam a brutalidade por galanteria, conhecem tanto as mulheres como sabem amá-las; julgam que, por terem de ir ao encontro da morte no dia seguinte, estão dispensados de terem, na véspera, cuidados e atenções conosco. Noutros tempos sabia-se tão bem amar como morrer com propósito. Minha querida sobrinha, hei de ensiná-lo a você. Porei termo ao triste desacordo, bastante natural, que os levaria a odiarem-se mutuamente, a desejarem o divórcio, caso não morresse antes de ser dominada pelo desespero. Júlia escutava a sua tia com pasmo e assombro, surpreendida por encontrar nas suas palavras uma sensatez que pressentia melhor que compreendia e deveras assustada por ouvir de uma parenta cheia de experiência, embora sob forma mais suave, a opinião formulada por seu pai a respeito de Victor. Ela teve, talvez, uma nítida intuição do futuro e sentiu o peso das desgraças que haviam de acabrunhá-la, pois rompeu em pranto, e lançou-se nos braços da outra dizendo: - Seja minha mãe! A tia não chorou, porque a Revolução deixou poucas lágrimas nos olhos das mulheres da antiga monarquia. Outrora, o amor e, mais tarde, o Terror familiarizaram-nas com as peripécias mais pungentes, de modo que conservam em meio aos perigos da vida uma dignidade fria, uma afeição sincera, mas pouco expansiva, que lhes permite manterem-se sempre fiéis à etiqueta e a uma nobreza de porte que os novos costumes tolamente repudiaram. A velha marquesa abraçou a jovem, beijou-a na fronte com uma ternura e uma graça que muitas vezes se encontram mais nas maneiras e nos hábitos dessas mulheres do que no seu coração; consolou a sobrinha com palavras meigas, prometeu-lhe um futuro feliz, embalou-a com promessas de amor, enquanto a ajudava a se deitar como se ela fosse sua filha, uma filha querida, cuja esperança e tristeza partilhava; revia-se nova, inexperiente e linda em sua sobrinha. A condessa adormeceu feliz por ter encontrado uma amiga, uma mãe a quem doravante tudo poderia confiar. Na manhã seguinte, quando a tia e a sobrinha se beijaram com essa cordialidade e esse ar de inteligência que atestam um progresso no sentimento, uma harmonia mais perfeita entre duas almas, ouviram os trotes de um cavalo, voltaram a cabeça ao mesmo tempo e viram o jovem inglês que passava vagarosamente, segundo o seu costume. Parecia ter feito certo levantamento sobre a vida das duas mulheres solitárias, e nunca deixava de passar enquanto almoçavam ou jantavam. O cavalo retardava o trote sem necessidade de aviso; depois, durante o tempo que levava a percorrer o espaço ocupado pelas duas janelas da sala de jantar, Artur lançava um olhar melancólico, quase sempre desdenhado pela condessa, que não lhe prestava a mínima atenção. Mas, habituada a essas curiosidades mesquinhas que se dão às mais pequeninas coisas, a fim de animar a vida de província, e das quais dificilmente se ocupam os espíritos superiores, a marquesa divertia-se com o amor tímido e sério tão tacitamente expresso pelo inglês. Aqueles olhares periódicos tinham-se tornado um hábito para ela, e todos os dias assinalava a passagem de Artur com novos gracejos. Tomando lugar à mesa, as duas senhoras olharam simultaneamente para o ilhéu. Os olhos de Júlia e de Artur encontraram-se dessa vez com tal precisão de sentimento que a jovem ruborizou. Imediatamente, ele apressou o cavalo e partiu a galope. - Que devo fazer? - perguntou Júlia à tia. - Quem vir esse inglês aqui pode supor que sou... - Sim - respondeu a tia, interrompendo-a. - E então posso dizer-lhe que não passeie por aqui? - Não seria fazê-lo pensar que é perigoso? E, de resto, pode impedir-se um homem de passar por onde lhe apeteça? Amanhã, deixaremos de fazer as refeições nesta sala; quando já não nos vir aqui, o jovem cavaleiro há de cessar de amá-la pela janela. Eis, minha querida criança, como procede uma mulher que tem experiência da vida. Mas a desgraça de Júlia devia ser completa. Logo que as duas senhoras se levantaram da mesa, chegou o criado de Victor, inesperadamente. Vinha de Bourges a todo galope, por atalhos, e trazia para a condessa uma carta de seu marido. Victor, que havia abandonado o imperador, anunciava à esposa a queda do regime imperial, a tomada de Paris e o entusiasmo que se declarava a favor dos Bourbons em todos os pontos da França; mas, não sabendo como penetrar em Tours, rogava-lhe se dirigisse a toda pressa a Orleans, onde esperava encontrar-se com passaportes para ela. Esse criado, antigo militar, devia acompanhar Júlia de Tours a Orleans, caminho que Victor julgava ainda livre. - A senhora não tem um instante a perder - disse o criado -; os prussianos, os austríacos e os ingleses vão fazer sua junção em Blois ou em Orleans... Em poucas horas, a jovem condessa fez seus preparativos e partiu numa antiga sege que a tia lhe em prestou. - Por que não vem conosco a Paris? - perguntou Júlia na despedida, beijando a marquesa. - Agora que os Bourbons voltam ao poder, encontraria lá... - Sem esse regresso inesperado, teria ido da mesma forma, minha pobre criança, porque meus conselhos são necessários a você e a Victor. Vou, pois, preparar-me para encontrar-me com vocês brevemente. Júlia partiu acompanhada pela sua criada de quarto e pelo velho militar, que galopava ao lado da sege, velando pela segurança da sua patroa. À noite, quando chegaram ao ponto onde deviam trocar os cavalos, um pouco adiante de Blois, Júlia, inquieta por ouvir um carro que a seguia desde Amboise, pôs-se à portinhola, a fim de ver quais eram os seus companheiros de jornada. A claridade da lua permitiu-lhe avistar Artur de pé, a três passos de distância, com os olhos fixos na sege. Os seus olhares encontraram-se. A condessa recuou vivamente para o fundo da carruagem, mas com um sentimento de medo que a fez palpitar. Como a maior parte das jovens realmente inocentes e sem experiência, via uma falta no amor que involuntariamente inspirara a um homem. Sentia um horror instintivo, que lhe dava talvez a consciência da sua fraqueza perante tão audaciosa agressão. Das mais fortes do homem é esse terrível poder de atrair a preocupação de uma mulher cuja imaginação, naturalmente mutável, se assusta ou se ofende com uma perseguição. A condessa recordou-se do conselho da tia e resolveu não tornar a mostrar-se durante a viagem, mas, a cada parada, ouvia o inglês, que passeava entre as duas seges; e, na estrada, o ruído importuno do carro que a seguia ressoava incessantemente a seus ouvidos. Pensou que logo que se reunisse ao marido, Victor saberia defendê-la contra essa singular perseguição. - Mas, e se esse rapaz não me amasse? Essa foi a última reflexão que ela fez. Ao chegar a Orleans, a sua sege de posta foi detida por ordem dos prussianos, levada para o pátio de uma estalagem e guardada por soldados. A resistência era impossível. Os estrangeiros explicaram aos três viajantes ,por meio de sinais imperiosos, que tinham recebido ordem de não deixar sair ninguém do carro. A condessa chorou durante duas horas, prisioneira entre soldados que fumavam, riam e por vezes fitavam-na com insolente curiosidade; finalmente, viu-os afastaram-se com certo respeito, ouvindo um galopar de cavalos. Eram oficiais superiores que chegavam tendo à frente um general austríaco, que se acercou da sege. - Senhora - disse o general - queira receber nossas desculpas; houve um engano, pode continuar a viagem sem receio, e aqui tem um passaporte que lhe evitará qualquer outra contrariedade... Júlia, toda trêmula, pegou no papel e balbuciou umas palavras vagas. Via, junto do general e com o uniforme de oficial inglês, Artur, a quem, sem dúvida, devia aquela pronta libertação. Alegre e melancólico ao mesmo tempo, o jovem inglês voltou a cabeça, e não ousou olhar para Júlia senão de soslaio. Graças ao passaporte, a condessa d’Aiglemont chegou a Paris sem outro contratempo. Aí encontrou o marido, que, desligado do juramento de fidelidade ao imperador, havia recebido o mais lisonjeiro acolhimento da parte do conde d’Artois, nomeado general-chefe do reino por seu irmão Luis XVIII. Victor teve um posto eminente na guarda pessoal, que correspondia ao grau de general. Todavia, em meio às festas que assinalaram o regresso dos Bourbons, a pobre Júlia sofreu um profundo desgosto que muito devia influir na sua vida: perdeu a marquesa de Listomère-Landon. A velha senhora morreu de alegria e da gota que lhe subiu ao coração, vendo novamente em Tours o duque de Angoulême. Assim, a única pessoa que, por conselhos sensatos, poderia tornar mais perfeito o acordo entre a mulher e o marido, essa pessoa morreu. Júlia sentiu toda a extensão dessa perda. Não havia mais ninguém entre ela e o marido; mas, jovem e tímida, devia preferir o sofrimento à queixa. A própria perfeição do seu caráter opunha-se a que ela ousasse subtrair-se aos deveres ou tentasse procurar a causa de suas dores, porque fazê-las cessar seria coisa muito delicada. Júlia teria medo de ofender seu pudor de moça. Uma palavra sobre o destino do senhor d’Aiglemont sob a Restauração. Não se encontram muitos homens cuja profunda nulidade é um segredo para a maior parte das pessoas que os conhecem? Uma posição elevada, um nascimento ilustre, atribuições importantes, certo verniz de polidez, grande reserva no procedimento ou prestígio da fortuna são para eles como guardas que impedem os críticos de penetrar a sua existência íntima. Essa gente se parece com os reis, cuja verdadeira estatura, caráter e costumes nunca podem ser bem conhecidos nem justamente apreciados, porque são vistos de muito longe ou de muito perto. Essas personagens de mérito factício interrogam em vez de falar, possuem a arte de dispor os outros em cena para evitar posar diante deles; depois, com grande habilidade, movimentam cada um pelo fio das suas paixões ou dos seus interesses e zombam assim de homens que lhes são realmente superiores, fazem deles fantoches e julgam-nos pequenos por que os rebaixaram até as suas pessoas. Obtêm então o triunfo natural de um pensamento mesquinho, porém fixo, sobre a mobilidade dos grandes pensamentos. De sorte que, para apreciar esses cérebros ocos e pesar-lhes os valores negativos, o observador deve possuir um espírito mais sutil que superior, mais paciência que alcance de vista, mais finura e tato que elevação e grandeza nas idéias. Não obstante, por maior habilidade que empreguem esses usurpadores em defender seus pontos fracos, é-lhes bem difícil enganar as esposas, as mães, os filhos ou o amigo da casa. Esses, porém, quase sempre lhes guardam o segredo sobre um assunto que de algum modo toca à honra comum, e muitas vezes até os ajudam a impor-se à sociedade. Se, graças a essas conspirações domésticas, muitos tolos passam por homens superiores, compensam o número de homens superiores que passam por tolos, de sorte que o estado social tem sempre a mesma massa de capacidades aparentes. Pensem agora no papel que deve representar uma mulher de espírito e de sentimento na presença de um marido desse gênero; não se conseguem perceber existências cheias de dores e dedicação cujos corações ternos e delicados coisa alguma neste mundo poderia recompensar. Encontrando-se uma mulher forte nessa horrível situação, sairá dela por meio de um crime, como fez Catarina II, não obstante denominada A Grande. Mas, como nem todas as mulheres se encontram sentadas num trono, sofrem quase todas as desgraças domésticas, que, por serem obscuras, não são menos terríveis. Aquelas que procuram neste mundo consolações imediatas aos seus males conseguem, apenas substituí-los por outros, quando querem conservar-se fiéis aos seus deveres, ou cometem faltas, se violam as leis em proveito dos seus prazeres. Estas reflexões são inteiramente aplicáveis à história secreta de Júlia. Enquanto Napoleão se manteve no poder, o conde d’Aiglemont, coronel como tantos outros, bom oficial de ordenança, excelente para cumprir uma missão perigosa, porém incapaz de um comando de certa importância, não excitou a mínima inveja, passou por um dos bravos que o imperador favorecia e foi o que os militares vulgarmente chamam um bom camarada. A Restauração, restituindo-lhe o título de marquês, não o encontrou ingrato; os Bouiions a Gand. Esse ato de lógica e de fidelidade fez mentir o horóscopo que outrora o sogro tirara, predizendo que o genro permaneceria sempre coronel. No segundo regresso, nomeado general-de-divisão e tendo reconquistado seu título de marquês, o senhor d’Aiglemont, com a ambição de chegar ao pariato, adotou as máximas e a política do Conservador; envolveu-se numa dissimulação que não ocultava coisa alguma, tornou-se grave, interrogador, de poucas falas, e foi tido como homem profundo. Usando sempre de uma extrema polidez, munido de fórmulas, retendo e prodigalizando as frases já feitas que se cunham regularmente em Paris para dar em troco aos tolos o sentido das grandes idéias ou fatos, as pessoas de suas relações reputaram-no homem de gosto e saber. Teimoso nas suas opiniões aristocráticas, foi citado como possuidor de esplêndido caráter. Se, por acaso, tornava-se descuidado ou alegre como fora noutro tempo, a significância e a estultícia das suas frases tinham para os outros sutilezas diplomáticas. - Oh! Ele só diz o que lhe interessa - pensavam as pessoas de categoria. Serviam-no tão bem as suas qualidades como os seus defeitos. A sua bravura valera-lhe alta reputação militar, que coisa alguma desmentia, porque nunca tivera comando algum. Seu rosto másculo e nobre refletia pensamentos vastos, e só para a esposa era uma impostura. Ouvindo todo o mundo prestar justiça aos seus talentos postiços, o marquês d’Aiglemont acabou por se persuadir de que era um dos homens mais notáveis da corte, onde, graças às aparências, soube agradar e onde seus diferentes méritos foram aceitos sem protesto. Contudo, o senhor d’Aiglemont era modesto em sua casa, sentia instintivamente a superioridade da esposa, apesar de muito nova; e desse involuntário respeito nasceu um poder oculto que a marquesa viu-se obrigada a aceitar, apesar de todos os seus esforços para afastar de si o pesado fardo. Conselheira do marido, ela dirigia-lhe os atos e a fortuna. Essa influência antinatural foi para ela uma espécie de humilhação e a origem de muitos desgostos que sepultara no coração. Dizia-lhe seu instinto, tão delicadamente feminino, que é muito mais belo obedecer a um homem de talento que guiar um parvo e que uma esposa jovem, obrigada a pensar e a proceder como um homem, não é nem mulher nem homem, abdica de todas as graças do seu sexo sem perder seus desgostos nem adquirir nenhum dos privilégios que as leis conferiram aos mais fortes. A sua existência ocultava uma irrisão bem amarga. Não era ela obrigada a honrar um ídolo oco? A proteger seu protetor, pobre ser que, por salário de uma dedicação contínua, lhe oferecia o amor egoísta dos maridos, só via nela uma mulher, não se dignava ou não sabia - injúria igualmente profunda - inquietar-se com seus prazeres nem cuidar de sua tristeza e do seu definhamento? Como a maior parte dos maridos que sentem o jugo de um espírito superior, o marquês salvava seu amor-próprio deduzindo da fraqueza física a fraqueza moral de Júlia, que ele se comprazia em lastimar, pedindo contas ao destino por ter-lhe dado por esposa uma mulher doentia. Enfim, dizia- se vítima, quando era o carrasco. A marquesa, sobre carregada com todos os pesares daquela triste existência, devia ainda sorrir ao seu imbecil senhor, ornamentar de flores uma casa de luto e ostentar felicidade num rosto empalidecido por secretos suplícios. Essa responsabilidade de honra, essa abnegação magnífica deram insensivelmente à jovem marquesa uma dignidade de mulher, uma consciência de virtude que lhe ser viram de escudo contra os perigos do mundo. Além disso, para sondar a fundo aquele coração, talvez o sofrimento íntimo e oculto que coroava seu primeiro, seu ingênuo amor, a fizesse considerar com horror as paixões; talvez não conhecesse nem o arrebatamento nem as alegrias ilícitas mas delirantes que levam certas mulheres a esquecer as leis da prudência, os princípios da virtude sobre os quais repousa a sociedade. Renunciando, como a um sonho, às doçuras, à terna harmonia que a velha experiência da senhora de Listomêre Landon lhe havia prometido, esperou com resignação o fim das suas penas, desejando morrer cedo. Desde seu regresso de Touraine, sua saúde alterara-se cada vez mais, e a vida parecia-lhe medida pelo sofrimento; sofrimento, aliás, elegante, doença quase voluptuosa na aparência, e que podia passar aos olhos de pessoas superficiais por uma fantasia de mulher afetada. Os médicos tinham condenado a marquesa a conservar-se deitada num divã, onde se estiolava entre as flores que a rodeavam, murchando com elas. A sua fraqueza proibia-lhe os passeios e o ar livre; só saía em carruagem fechada. Sempre rodeada de todas as maravilhas do luxo e da indústria moderna, mais se assemelhava a uma rainha indolente que a uma enferma. Alguns amigos, talvez pelo seu infortúnio e fraqueza, certos de a encontrarem sempre em casa e especulando sem dúvida também sobre sua boa saúde futura, iam levar-lhe notícias e informá-la dos mil acontecimentos insignificantes que tornam em Paris a existência tão variada. Sua melancolia, conquanto grave e profunda, era a melancolia da opulência. A marquesa d’Aiglemont assemelhava-se a uma linda flor cuja raiz é roída por um inseto nocivo. Aparecia algumas vezes nos salões, não por gosto, mas para obedecer às exigências da posição a que aspirava seu marido. Sua voz e a perfeição do seu canto podiam permitir-lhe obter aplausos que geralmente agradam a uma jovem, mas para que lhe serviam êxitos que ela não ligava a sentimentos nem a esperanças? O marido não gostava de música. Enfim, sentia-se quase sempre contrafeita nos salões onde sua beleza lhe atraía homenagens interesseiras. Ali sua situação excitava certa compaixão cruel, uma curiosidade triste. Júlia sofria de uma inflamação geralmente mortal, que as mulheres confiam ao ouvido umas das outras e para a qual a nossa neologia ainda não achou nome. Apesar do silêncio em que se escoava a sua vida, a causa do seu sofrimento não era segredo para ninguém. Sempre jovem, não obstante o casamento, o mais rápido olhar a envergonhava. De sorte que, para evitar o rubor, mostrava-se sempre risonha, contente; afetava uma falsa alegria, dizia-se sempre bem ou afastava as perguntas acerca de sua saúde com pudicas mentiras. Entretanto, em 1817, um fato contribuiu muito para modificar o estado deplorável em que Júlia se afundara até então. Teve uma filha e quis criá-la. Durante dois anos, as vivas distrações e as inquietas alegrias que dão os cuidados maternais tornaram-lhe a existência menos infeliz. Separou-se necessariamente do marido. Os médicos prognosticaram-lhe melhor saúde mas a marquesa não deu crédito àqueles presságios. Como toda gente para quem a vida não tem encanto, via talvez na morte um desenlace feliz. No começo do ano de 1819, a vida tornou-se-lhe mais cruel que nunca. No momento em que aplaudia a felicidade negativa que soubera conquistar, entreviu abismos medonhos; o marido, pouco a pouco, desabituara-se dela. Esse resfriamento de uma afeição já tão morna e egoísta podia ser origem de mais um infortúnio que o seu fino tato e a sua prudência lhe faziam prever. Ainda que estivesse certa de conservar um grande poder sobre Victor e de haver obtido sua estima para sempre, temia a influência das paixões sobre um homem tão nulo e tão vaidosamente irrefletido. Muitas vezes, seus amigos surpreendiam Júlia em longas meditações; os menos perspicazes perguntavam-lhe a causa gracejando, como se uma jovem só pudesse pensar em frivolidades, como se não existisse quase sempre um sentido profundo nos pensamentos de uma mãe-de-família. De resto, tanto a desgraça como a verdadeira felicidade nos levam ao devaneio. Às vezes, brincando com sua Helena, Júlia fitava-a com um olhar sombrio e cessava de responder a essas interrogações infantis que causam tanto prazer às mães, para pedir conta do seu destino ao presente e ao futuro. Seus olhos enchiam-se então de lágrimas quando, de repente, qualquer recordação lhe reavivava a cena de revista nas Tulherias. As palavras previdentes do pai ressoavam-lhe de novo ao ouvido, e a consciência censurava-a por não as ter atendido. Dessa insensata desobediência provinham todos os seus infortúnios, e muitas vezes não sabia, entre todos, qual era o mais penoso. Não somente os doces tesouros de sua alma permaneciam ignorados, como nunca conseguira fazer-se compreender pelo seu marido, nem mesmo nas coisas mais comezinhas. No momento em que a faculdade de amar se desenvolvia nela mais forte e ativa, o amor permitido, o amor conjugal extinguia-se em meio a graves sofrimentos físicos e morais. Ademais, tinha pelo marido essa compaixão vizinha do desprezo, que destrói com o tempo todos os sentimentos. Enfim, se as conversas com alguns amigos, se os exemplos ou se certas aventuras da alta sociedade não lhe tivessem mostrado que o amor pode causar imensa felicidade, seus desgostos ter-lhe-iam feito adivinhar as alegrias íntimas e puras que devem unir almas fraternais. No quadro que a memória lhe traçava do passado, desenhava-se o rosto cândido de Artur cada dia mais puro e mais belo, mas rapidamente, pois não ousava demorar-se nessa lembrança. O amor silencioso e tímido do jovem inglês era o único acontecimento que, depois do casamento, lhe havia deixado alguns vestígios suaves no coração sombrio e solitário. Talvez todos os desenganos, todos os desejos frustrados que, gradualmente, entristeciam o espírito de Júlia remontassem, por um capricho natural da imaginação, a esse homem, cujos modos, sentimentos e caráter pareciam oferecer tanta semelhança com os seus. Todavia, esse pensamento tinha sempre a aparência de um capricho, de um sonho. Após esse sonho impossível, que morria sempre num suspiro, Júlia despertava mais infeliz e sentia mais suas dores latentes quando as ha via adormecido sob as asas de uma felicidade imaginária. Às vezes seus queixumes assumiam um caráter de loucura e de audácia, queria obter prazeres a todo custo; porém, mais freqüentemente ainda, era presa de um terror estúpido, escutava sem compreender, ou concebia pensamentos tão vagos, tão indecisos, que não encontraria palavras para os traduzir. Magoada nos seus mais íntimos desejos, nos costumes que em jovem sonhara, via-se obrigada a reter suas lágrimas. A quem havia de queixar-se? Quem a escutaria? Além disso, ela possuía essa extrema delicadeza de mulher, esse delicioso pudor de sentimento que consiste em calar uma queixa inútil, em não desejar um triunfo que deve humilhar o vencedor e o vencido. Júlia tentava incutir sua capacidade, suas próprias virtudes ao senhor d’Aiglemont, e lisonjeava-se de gozar a felicidade que lhe faltava. Toda sua sabedoria de mulher era inutilmente empregada em atenções ignoradas por aquele cujo despotismo perpetuavam. Havia momentos em que o desgosto deixava-a como que embriagada, sem idéias, meio louca; mas felizmente um sentimento de verdadeira piedade logo a reconciliava com uma suprema esperança; refugiava-se na vida futura, crença admirável que a fazia aceitar de novo a sua dolorosa tarefa. Esses combates tão terríveis, essas angústias íntimas eram obscuras, essas longas melancolias eram desconhecidas; criatura alguma recolhia seus gemidos, seus olhares ternos, suas lágrimas amargas derramadas na solidão. Os perigos da crítica situação a que insensivelmente chegara por força das circunstâncias revelaram-se em toda sua gravidade numa noite do mês de janeiro de 1820. Quando dois esposos se conhecem perfeitamente e estão muito habituados um ao outro, quando uma mulher sabe interpretar os gestos mais insignificantes de um homem e pode penetrar seus sentimentos ou as coisas que ele lhe oculta, sucede que brilha uma repentina claridade, devido às reflexões e reparos dados pelo acaso, ou tecidos a princípio descuidadamente. Amiúde, uma mulher desperta, de repente, à beira ou no fundo de um abismo. Assim a marquesa, feliz por se achar só havia alguns dias, adivinhou o segredo da sua solidão. Inconstante ou enfastiado, generoso ou cheio de compaixão por ela, seu marido não lhe pertencia mais. Nesse momento, Júlia não pensou em si nem nos seus sofrimentos, nem nos seus sacrifícios; só se lembrou de que era mãe e só considerou a fortuna, o futuro, a felicidade de sua filha, o único ente de quem lhe vinha algum contentamento: a sua Helena, único bem que a prendia à vida. Agora desejava viver para preservar a filha do jugo medonho sob o qual uma madrasta sufocaria a vida daquela querida criança. A essa nova previsão de um sinistro futuro, entregou-se a uma dessas meditações ardentes que devoram anos inteiros. Daí em diante, entre ela e o marido devia encontrar-se um mundo de pensamentos, cujo peso só ela suportaria. Até então, certa de ser amada por Víctor, tanto quanto ele podia amar, dedicara-se a uma felicidade que não partilhava; mas, presentemente, não tendo já a satisfação de saber que as suas lágrimas faziam a alegria do marido, sozinha no mundo, restava-lhe apenas a escolha dos infortúnios. Em meio ao desânimo que, no sossego e silêncio da noite, a deixava sem forças; no momento em que, levantando-se do divã, ia contemplar a filha à luz de um candeeiro, entrou o senhor d’Aiglemont, muito alegre. Júlia mostrou-lhe com admiração a filha, que dormia a sono solto; mas ele acolheu o entusiasmo da esposa com uma frase banal. - Nesta idade, todas as crianças são graciosas. E depois de ter beijado com indiferença a testa da filha, cerrou as cortinas do berço, olhou para Júlia, pegou-lhe na mão e fê-la sentar-se no mesmo divã, onde ela acabava de remoer tantos pensamentos fatais. - Está muito bonita esta noite, senhora d’Aiglemont! - exclamou com aquela alegria insuportável, cujo vazio a marquesa tão bem conhecia. - Onde passou a noite? - perguntou Júlia, fingindo a mais absoluta indiferença. - Em casa da senhora de Sérizy. Pegara um objeto qualquer que estava sobre a lareira e examinava-o atentamente, sem ter notado os vestígios das lágrimas vertidas por sua mulher. Júlia estremeceu. As palavras seriam impotentes para exprimir a torrente de pensamentos que lhe escapou do coração e que ela teve de conter. - A senhora de Sérizy dá um concerto na próxima segunda-feira e deseja muito que você assista a essa festa. Como há muito você não aparece na sociedade, é o bastante para ela desejar ver-lhe em sua casa. É uma excelente senhora e lhe estima muito. Me dará muito prazer aceitando seu pedido; quase respondi por você... - Irei - respondeu Júlia. O som da voz, a acentuação e o olhar da marquesa tinham qualquer coisa de tão penetrante, tão particular que, apesar de sua indiferença, Victor fitou a mulher com espanto; porém, nada disse. Júlia adivinhara, num relance, que a senhora de Sérizy era a mulher que lhe roubara o coração do marido. Absorveu-se numa meditação desesperadora, e pareceu muito ocupada a olhar para o fogo. Victor revelava a atitude de um homem que, após ter achado a felicidade noutra parte, só encontra tédio e fadiga em casa. Depois de ter bocejado várias vezes, pegou um castiçal com uma das mãos, com a outra procurou languidamente o pescoço de sua mulher, querendo abraçá-la; mas Júlia curvou-se e apresentou-lhe a fronte, onde ele depôs o beijo de todas as noites, beijo maquinal sem amor, espécie de careta que lhe pareceu então odiosa. Quando Victor fechou a porta, a marquesa deixou-se cair numa cadeira, trêmula e banhada em lágrimas. E preciso ter experimentado o suplício de alguma cena semelhante para compreender os sofrimentos que oculta, para adivinhar os longos e terríveis dramas que ocasiona. Aquelas palavras insignificantes e banais, aquele silêncio entre os dois esposos, os gestos, os olhares, a maneira como o marquês se sentara junto da lareira, a sua atitude de querer beijar o colo da mulher, tudo servira para fazer daquela hora um trágico desenlace à vida solitária e dolorosa de Júlia. Na loucura que a acometeu, ela ajoelhou-se junto ao divã, escondendo o rosto para não ver coisa alguma, e rogou a Deus, dando às palavras usuais da sua oração um acento íntimo, uma significação nova, que teriam dilacerado o coração do marido, se a tivesse ouvido. Durante oito dias esteve preocupada com seu futuro, presa da infelicidade, procurando um meio de não mentir ao seu coração, de recuperar seu império sobre o marquês e viver suficientemente para velar pela felicidade da filha. Resolveu, então, lutar com a sua rival, tornar a aparecer e brilhar na sociedade, fingir pelo marido um amor que já não podia sentir, seduzi-lo enfim; depois, quando com os seus artifícios o tivesse sob seu poder, tornar-se-ia faceira para com ele como o são essas mulheres caprichosas, que sentem prazer em atormentar seus amantes. Essa odiosa artimanha era o único remédio possível para seus males. Desse modo, poderia tornar-se senhora dos seus sofrimentos, ordená-los a seu bel-prazer e torná-los raros, subjugando o marido sob um despotismo terrível. Não sentia Júlia o mínimo remorso de lhe impor uma existência difícil. De um salto, lançou-se nos frios cálculos da indiferença. Para salvar a filha, adivinhou de súbito as perfídias, as mentiras das criaturas que não amam, os embustes da faceirice e essas atrozes astúcias que tornam tão profundamente odiosas as mulheres nas quais os homens supõem, então, corrupções inatas. A despeito de Helena, a sua vaidade feminina, o seu interesse e um vago desejo de vingança concordaram com o seu amor materno para induzi-la num caminho onde novas dores a aguardavam. Ela possuía, porém, uma alma demasiada bem-formada, um espírito excessivamente delicado, e sobretudo muita franqueza para permanecer, por longo tempo, cúmplice dessas fraudes. Habituada a ler em si mesma, ao primeiro passo no vício - porque assim podia ser chamado -, o grito da sua consciência devia abafar o das paixões e do egoísmo. Com efeito, numa mulher nova, cujo coração é ainda puro e onde o amor se conservou virgem, o próprio sentimento da maternidade é submetido à voz do pudor. E o pudor não é a própria mulher? Júlia, porém, não quis descobrir nenhum perigo, nenhuma falta na sua nova vida. Foi à casa da senhora de Sérizy. A sua rival esperava ver uma mulher pálida, lânguida; a marquesa pintara-se, e se apresentou com todo o brilho de uma toilette que ainda mais lhe realçava a beleza. A condessa de Sérizy era uma dessas mulheres que pretendem exercer, em Paris, uma espécie de poderio sobre a moda e a sociedade; promulgava decretos que, acolhidos no círculo em que reinava, pareciam-lhe universalmente adotados; tinha a pretensão de impor os termos; era soberanamente sentenciosa. Literatura, política, homens e mulheres, tudo estava sujeito à sua censura; e a senhora de Sérizy parecia desafiar as das demais damas. A sua casa era, de todos os pontos de vista, um modelo de bom-gosto. No meio desses salões cheios de mulheres elegantes e formosas, Júlia triunfou sobre a condessa. Espirituosa, viva, alegre, teve em torno de si os homens mais distintos do sarau. Para desespero das mulheres, a sua toilette era irrepreensível, e todas lhe invejaram um feitio que foi geralmente atribuído ao talento de alguma modista desconhecida, porque as mulheres preferem acreditar mais na ciência dos tecidos que na graça e perfeição daquelas que são feitas de molde a realçá-los. Quando Júlia se levantou para ir cantar ao piano a romanza de Desdêmona, os homens acudiram de todas as salas para ouvir aquela voz famosa, muda havia tanto tempo, e fez-se profundo silêncio. A marquesa experimentou viva comoção, vendo todas aquelas cabeças aglomeradas junto das portas e todos os olhos cravados nela. Procurou o marido, lançou-lhe um olhar provocante e viu com prazer que naquele momento o seu amor-próprio achava-se extraordinariamente lisonjeado. Radiante de seu triunfo, encantou o auditório na primeira parte de Alpie’d’un salice. Nem a Malibran nem a Pasta jamais haviam interpretado uma romanza com tanto sentimento e maestria; mas, quando ia repeti-la, olhou para os grupos e distinguiu Artur, cujo olhar fixo não a abandonava. Estremeceu, e a voz alterou-se. A senhora de Sérizy correu logo para a marquesa: - Que tem, minha querida? - perguntou. - Oh!, é tão doente! Tremi ao vê-la empreender uma coisa superior às suas forças... A romanza foi interrompida. Júlia, despeitada, não se sentiu com coragem de prosseguir, e teve de sofrer a pérfida compaixão de sua rival. Todas as mulheres segredaram baixinho; depois, à força de discutir esse incidente, adivinharam a luta travada entre a marquesa e a senhora de Sérizy, a quem não pouparam seus mexericos. Os estranhos pressentimentos que tantas vezes haviam agitado Júlia achavam-se subitamente realizados. Pensando em Artur, comprazia-se em acreditar que um homem aparentemente tão meigo, tão delicado, devia conservar-se fiel ao seu primeiro amor. Às vezes, envaidecia-se por ser objeto dessa paixão, pura e verdadeira, de um rapaz cujos pensamentos pertencem exclusivamente à sua bem-amada, cujos momentos lhe são todos consagrados, sem subterfúgios, que cora do que faz corar a mulher, pensa como ela, não lhe dá rivais, e se lhe entrega, sem pensar na ambição, na glória, na fortuna. Tudo isso ela sonhara de Artur por loucura, por distração, e de repente julgou ver o seu sonho realizado. Leu no rosto quase feminino do jovem inglês os pensamentos profundos, as suaves melancolias, as resignações dolorosas de que também ela era vitima. Reconheceu-se nele, a infelicidade e a melancolia são os intérpretes mais eloqüentes do amor e correspondem-se entre dois seres que sofrem com incrível rapidez A visão intima e a comunhão dos fatos ou das idéias são neles completas e justas. Por isso, a violência do choque que recebeu a marquesa revelou-lhe todos os perigos do futuro. Demasiado feliz por achar um pretexto à sua perturbação no seu estado habitual de sofrimentos, deixou-se de boa vontade subjugar pela engenhosa piedade da senhora de Sérizy. A interrupção da romanza era um acontecimento de que todos falavam, interpretando-a cada um a seu modo. Uns deploravam a sorte de Júlia e lastimavam que uma senhora tão notável estivesse perdida para a sociedade; outros queriam saber a causa do seu sofrimento e da solidão em que vivia. - E, então, meu caro Ronqueroiles! - dizia o marquês ao irmão da senhora de Sérizy. - Você invejava a minha felicidade, vendo a senhora d’Aiglemont, e censurava-me por lhe ser infiel? Pois acharia a minha sorte bem pouco desejável, se estivesse como eu na presença de uma linda mulher durante um ou dois anos, sem ousar beijar-lhe a mão, com receio de quebrá-la. Não se embarace nunca com essas jóias delicadas, boas unicamente para pôr sob uma redoma, e que, pela sua fragilidade e preço, somos obrigados a respeitar. Muitas vezes você sai no seu melhor cavalo para o qual receia, segundo me disseram, a chuva e a neve? Ora, aí tem a minha história. É verdade que estou confiadíssimo na virtude da minha mulher; porém, o meu casamento é um luxo; e, se me julga casado, engana-se. Assim, as minhas infidelidades são, sob certo aspecto, legítimas. Gostaria bem de saber como procederiam no meu lugar, senhores zombeteiros! Muitos homens não teriam tantas atenções como eu tenho para com a minha mulher. Estou certo - acrescentou em voz baixa - de que a senhora d’Aiglemont não suspeita de nada. Portanto, faria muito mal queixando-me; sou deveras feliz... O certo, porém, é que não há nada mais aborrecido para um homem sensível do que ver sofrer uma pobre criatura de quem se gosta... - Você tem então muita sensibilidade? tornou o senhor de Ronquerolles. - Pois raras vezes está em casa. Esse gentil epigrama fez rir os ouvintes; porém Artur conservou-se frio e imperturbável, como cavalheiro que tomou a gravidade por base do seu caráter. As estranhas palavras daquele marido fizeram, sem dúvida, conceber algumas esperanças ao jovem inglês, que esperou com paciência o momento de se achar só com o senhor d’Aiglemont, e a ocasião apresentou-se logo. Senhor - disse ele -, vejo com infinito pesar o estado da senhora marquesa, e se soubesse que, por falta de um regime especial, ela pode morrer miseravelmente, creio que não gracejaria mais com seus sofrimentos. Se lhe falo assim é porque me sinto de algum modo autorizado pela certeza que tenho de salvar a senhora d’Aiglemont e restituí-la à vida e à felicidade. E pouco natural encontrar um médico fidalgo; e, todavia, o acaso quis que eu estudasse medicina. Ora, aborreço-me bastante - continuou, afetando um frio egoísmo que devia servir aos seus desígnios- para que se me torne indiferente dispensar o meu tempo e as minhas viagens em proveito de alguém que sofre, em vez de satisfazer loucas fantasias. A cura dessa espécie de doença é rara, porque exige muitos cuidados, tempo e paciência; é mister sobretudo ter fortuna, viajar, seguir rigorosamente prescrições que variam todos os dias e nada têm de desagradável. Somos ambos perfeitos cavalheiros - disse ele, dando a essa palavra a acepção inglesa de gentleman - e podemos entender-nos. Previno-o de que se aceitar minha proposta, será a todo momento juiz do meu procedimento. Nada empreenderei sem seu prévio consentimento, sem sua vigilância, e respondo pelo êxito, se consentir em me obedecer. Sim, se deixar de ser, durante longo tempo, o marido da senhora d’Aiglemont - segredou-lhe ao ouvido. - E certo, milorde - replicou o marquês rindo -, que só um inglês podia fazer-me uma proposta tão singular. Permita-me que a não rejeite nem acolha, vou refletir. Depois, antes de mais nada, deve ser submetida à minha esposa. Nesse momento, Júlia voltou a sentar-se ao piano. Cantou a ária de Semíramis, Son regina, son guerriera. Aplausos unânimes, porém surdos, por assim dizer, aclamações polidas do bairro Saint-Germain testemunharam o entusiasmo que provocara. Quando d’Aiglemont acompanhou a mulher à casa, Júlia viu com certo prazer o pronto êxito das suas tentativas. O marido, desperto pelo papel que ela acabava de representar, quis honrá-la com uma fantasia, como teria feito a uma atriz. Júlia achou divertido ser tratada assim, sendo virtuosa e casada; tentou brincar com seu poder, e nessa primeira luta a sua bondade fê-la sucumbir ainda uma vez; porém, recebeu a mais terrível das lições que lhe reservara o destino. Pelas duas ou três horas da manhã, estava sentada, sombria e pensativa, no leito conjugal; o quarto era iluminado por uma lâmpada que espalhava uma luz incerta; o silêncio era profundo; e havia uma hora que a marquesa chorava, entregue a cruéis remorsos. A amargura do seu pranto só pode ser compreendida pelas mulheres que se acharam em situação idêntica. Seria necessário possuir a alma de Júlia para sentir o horror de uma carícia calculada, para se julgar tão ofendida por um beijo frio; apostasia do coração, agravada ainda por uma dolorosa prostituição. Perdera a estima de si mesma, amaldiçoava o casamento, desejaria ter morrido; e, sem um grito dado pela filha, ter-se-ia precipitado da janela para a rua. O senhor d’Aiglemont dormia serenamente junto dela, sem ser despertado pelas ardentes lágrimas que caíam sobre ele. No dia seguinte, Júlia soube mostrar-se alegre. Encontrou forças para mostrar-se feliz e ocultar não já a sua melancolia, porém um invencível horror. Desde esse dia, deixou de se considerar uma mulher irrepreensível. Não tinha ela mentido a si mesma? Desde então, não era capaz de dissimular, e não podia mais tarde ostentar assombrosa perícia nos delitos conjugais? Seu casamento era a causa dessa perversidade a priori que não se exercia ainda sobre coisa alguma. Todavia, já tinha perguntado a si mesma por que havia de resistir a um amante adorado, quando se entregava, a despeito do seu coração e do voto da natureza, a um marido que já não amava. Todas as faltas e crimes têm, talvez, princípio num raciocínio errado ou em algum excesso de egoísmo. A sociedade só pode existir pelos sacrifícios individuais que as leis exigem. Aceitar-lhe as vantagens não é obrigar-se a manter as condições que a fazem subsistir? Os desgraçados sem pão, obrigados a respeitar a propriedade alheia, não são mais dignos de lástima do que as mulheres feridas nos votos e na delicadeza dos seus sentimentos. Alguns dias depois dessa cena, cujos segredos ficaram sepultados no leito conjugal, o senhor d’Aiglemont apresentou lorde Grenvilie à sua mulher. Júlia recebeu Artur com uma polidez fria que fazia honra à sua dissimulação. Impôs silêncio ao coração, velou seu olhar, tornou a voz firme, e pôde assim conservar-se dona do seu futuro. E depois de ter reconhecido por esses meios, inatos por assim dizer nas mulheres, toda a grandeza do amor que havia inspirado, a senhora d’Aiglemont sorriu à esperança de um pronto restabelecimento e não opôs maior resistência à vontade do marido, que a persuadia a aceitar os cuidados do jovem doutor. Contudo, ela não quis fiar-se em lorde Grenville sem ter estudado bem suas palavras e maneiras e adquirido a certeza de que teria a generosidade de sofrer em silêncio. Tinha sobre ele o mais absoluto poder, de que já abusava; não era ela mulher? Montcontour é um velho solar situado sobre um desses áureos rochedos que dominam o Loire, não longe do lugar onde Júlia parara em 1814. É um desses pequenos castelos da Touraine, brancos, lindos, de torrezinhas esculpidas, bordados como uma renda de Malines; um desses castelos em miniatura, graciosos, que se contemplam alegres nas águas do rio com seus ramos de amoreiras, suas vinhas, suas escavações, suas longas e diáfanas balaustradas, seus mantos de hera e suas escarpas. Os telhados de Montcontour brilham sob os raios de sol, tudo ali é ardente. Mil vestígios da Espanha tornam poética ao extremo essa encantadora habitação: as giestas, as campainhas perfumam a brisa, o ar é acariciador, a terra parece sorrir e, por toda a parte, sente-se a alma envolta em suaves magias, que a tornam preguiçosa, apaixonada, amolecendo-a, embalando-a. Essa formosa e suave região adormece as dores e desperta as paixões. Ninguém se conserva frio sob esse céu puro, diante dessas águas cintilantes. É onde se perde toda ambição e se adormece no seio de uma tranqüila felicidade, como o sol ocultando-se no seu manto de púrpura e azul. Numa serena tarde do mês de agosto, em 1821, duas pessoas subiam os caminhos pedregosos que recortam os rochedos sobre os quais está assente o castelo e se dirigiam para o ponto mais alto, a fim de apreciar das alturas os inúmeros recantos que se descerram. Essas duas pessoas eram Júlia e lorde Grenvilie; Júlia parecia, porém, outra mulher. A marquesa apresentava cores sadias. Seus olhos, vivificados por um poder fecundo, brilhavam através de um vapor úmido, semelhante ao fluido que dá aos olhares das crianças encantos irresistíveis. Sorria de prazer, sentia-se feliz e concebia a vida. No seu modo de andar, era fácil ver que nenhum sofrimento tornava dolorosos como outrora seus mínimos movimentos, seus gestos e suas palavras. Debaixo da sombrinha de seda branca que a protegia contra os raios quentes do sol, assemelhava-se a uma noiva envolta pelo véu, a uma virgem pronta a se entregar aos encantos do amor. Artur conduzia-a com cuidado de amante, guiava-a como se guia uma criança, levava-a pelo melhor caminho, fazia-a evitar as pedras, mostrava-lhe alguma vista encantadora ou a colocava diante de uma flor, sempre movido por um perpétuo sentimento de bondade, por uma intenção delicada, por um conhecimento íntimo do bem-estar dessa mulher, sentimentos que pareciam ser-lhe inatos, tanto ou mais talvez que o movimento necessário à sua própria existência. A doente e seu médico caminhavam no mesmo passo, sem se mostrarem admirados do acordo que parecia existir entre si, desde o primeiro dia em que caminharam ao lado um do outro: obedeciam a uma mesma vontade, paravam impressionados pelas mesmas sensações; seus olhares, suas palavras correspondiam a mútuos pensamentos. Tendo chegado ao cimo de uma vinha, quiseram descansar numa dessas compridas pedras brancas que se extraem continuamente das cavidades praticadas no rochedo; porém, antes de se sentar, Júlia contemplou o panorama. - Que linda região! - exclamou ela. - Armemos uma tenda e vivamos aqui. Victor, venha, venha depressa! O senhor d’Aiglemont respondeu debaixo dando um grito, mas sem se apressar: apenas olhava para a mulher de tempos a tempos, quando as sinuosidades do caminho lho permitiam. Júlia aspirou o ar com prazer, erguendo a cabeça, envolvendo Artur num desses olhares expressivos, nos quais uma mulher de espírito revela todo o seu pensamento. - Oh! - tornou Júlia -, desejaria ficar sempre aqui. Pode alguém cansar-se de admirar este lindo vale? Sabe o nome deste rio, milorde? - É o Cise. - O Cise - repetiu Júlia. - E lá em baixo, na nossa frente, que é? - São as colinas do Cher. - E à direita? Ah, é Tours. Mas veja o admirável efeito que produzem ao longe os sinos da catedral! Calou-se, e a mão com que designava a cidade, deixou-a cair sobre a de Artur. Ambos admiraram em silêncio a paisagem e as belezas daquela harmoniosa natureza. O murmúrio das águas, a pureza do ar do céu, tudo se combinava com os pensamentos que acudiam em massa a seus corações amantes e juvenis. - Oh! Meu Deus, quanto me agrada este lugar! - repetiu Júlia, cada vez mais entusiasmada. - Viveu muito tempo aqui? - tornou ela, depois de uma pausa. A essas palavras, lorde Grenville estremeceu. - Foi ali - respondeu com tristeza, designando uma moita de nogueiras à beira da estrada - que a vi pela primeira vez... - Sim, mas eu estava muito triste; esta natureza pareceu-me selvagem, e agora... Calou-se. Lorde Grenvilie não ousou fitá-la. - É a você - disse afinal Júlia depois de um longo silêncio - que devo este prazer. É preciso estar viva para sentir as alegrias da vida, e até agora não estava eu morta para tudo? Deu-me mais que a saúde, ensinou-me a avaliar-lhe todo o preço... As mulheres possuem um talento inimitável para exprimir seus sentimentos sem empregar palavras demasiado vivas; sua eloqüência está principalmente na entonação, no gesto, na atitude e no olhar. Lorde Grenville ocultou a cabeça entre as mãos, as lágrimas deslizavam-lhe pelas faces. Agradecimento, era o primeiro que Júlia lhe dirigia desde sua partida de Paris. Durante um ano inteiro, tratara ele da marquesa com a mais completa dedicação. Auxiliado por d’Aiglemont, levara-a às águas de Aix, depois para as praias da Rochelie. Observando a cada momento as mudanças que suas sábias e simples prescrições produziam na constituição arruinada de Júlia, cultivara-a como pode fazer com uma flor rara um jardineiro apaixonado. A marquesa parecera aceitar os cuidados inteligentes de Artur, com todo o egoísmo de uma parisiense habituada às homenagens, ou com a indiferença de uma cortesã que não sabe o custo das coisas nem o valor dos homens e os avalia segundo o grau de utilidade que têm para ela. A influência exercida sobre a alma pelos lugares é uma coisa digna de notar. Se infalivelmente a melancolia se apodera de nós quando nos achamos à beira-mar, uma outra lei de nossa impressionável natureza faz que os nossos sentimentos se purifiquem nas montanhas; a paixão ganha aí em profundidade o que perde em vivacidade. O aspecto da vasta bacia do Loire, a elevação da linda colina, onde os dois amantes estavam sentados, causavam talvez a deliciosa serenidade em que primeiro saboreavam a felicidade, que se goza adivinhando a grandeza de uma paixão oculta sob palavras insignificantes na aparência. No momento em que Júlia concluía a frase que tão vivamente havia comovido lorde Grenville, uma brisa ciciante agitou a copa das árvores, espalhou pelo ar o frescor das águas; algumas nuvens encobriram o sol, deixando ver todas as belezas daquela encantadora natureza. Júlia voltou a cabeça para que o jovem lorde não lhe visse as lágrimas, porque estava tão comovida como ele. Não ousou erguer os olhos para Artur com receio de que ele lesse a imensa alegria daquele olhar. Seu instinto de mulher a fazia sentir que naquela hora perigosa devia ocultar seu amor no fundo do coração. Contudo, o silêncio podia ser igualmente temível. Notando que lorde Grenvilie estava incapaz de pronunciar uma palavra, prosseguiu : Talvez essa viva expansão seja a maneira como uma alma boa e delicada como a sua se arrepende de ter feito juízo temerário. Ter-me-á julgado ingrata, encontrando me fria e reservada ou zombeteira e insensível durante esta viagem que felizmente está prestes a terminar. Eu não seria digna de receber seus cuidados, se não tivesse sabido apreciá-los. Nada esqueci, milorde. Ai de mim!, nada esquecerei, nem a solicitude que o fazia velar por a delicadeza do seu procedimento; seduções contra as quais nos achamos todas sem defesa. Milorde, não está no meu poder recompensá-lo... E, dizendo isto, Júlia afastou-se precipitadamente, e lorde Grenville não procurou sequer detê-la; a marquesa parou junto de um rochedo pouco distante, onde se conservou imóvel; suas emoções foram segredo para eles próprios. Sem dúvida, choraram em silêncio; os cantos dos pássaros, tão alegres, tão pródigos de expressões ternas, ao pôr-do-sol, aumentaram decerto a violenta emoção que os forçou a separarem-se; a natureza encarregava-se de lhes exprimir um amor de que não ousavam falar. - Pois bem, milorde - disse Júlia, acercando-se novamente de Artur, numa atitude cheia de dignidade que lhe permitiu pegar-lhe na mão -, irei pedir- lhe que torne pura e santa a vida que me restituiu. Separamo-nos aqui. Sei - acrescentou ela vendo empalidecer lorde Grenvilie - que, como preço da sua dedicação, vou exigir-lhe um sacrifício ainda maior do que aqueles cuja extensão eu devia reconhecer melhor... Mas assim é preciso... Não permanecerá na França. Ordená-lo não é dar-lhe direitos que serão sagrados?- acrescentou Júlia, colocando a mão do rapaz sobre seu coração palpitante. - Assim é - disse Artur, erguendo-se. Nesse momento, ele mostrou d’Aiglemont com a filha nos braços, que aparecia do outro lado de um caminho sobre a balaustrada. Ali subira para fazer saltar a pequena Helena. - Júlia, não lhe falarei do meu amor; nossas almas compreendem-se perfeitamente. Por muito íntimas e secretas que fossem as alegrias do meu coração, partilho-as todas; sinto-o, sei, vejo. Agora, adquiro a deliciosa prova da constante simpatia dos nossos corações, mas fugirei... Tenho calculado, amiúde, muito habilmente os meios de matar aquele homem para poder resistir sempre a esta tentação, se me conservasse junto de você. - Tive o mesmo pensamento replicou Júlia, deixando transparecer no rosto alterado a expressão de uma dolorosa surpresa. - Comoveram-no as minhas palavras, milorde? Havia, porém, na voz e no gesto que escaparam à marquesa, tanta virtude, tanta confiança em si própria e tantas vitórias secretamente ganhas sobre o amor, que lorde Grenville ficou transido de admiração. A própria sombra do crime tinha-se desvanecido naquela consciência singela. O sentimento religioso que dominava nessa bela fronte devia sempre expulsar os maus pensamentos involuntários que nossa natureza imperfeita engendra, mas que mostram ao mesmo tempo a grandeza e os perigos do nosso destino. - Então, incorreria no seu desprezo, e ele me salvaria - tornou Júlia, abaixando os olhos. - Perder sua estima não seria o mesmo que morrer? Esses dois heróicos amantes permaneceram ainda um momento silenciosos, entregues à sua enorme dor; bons ou maus, seus pensamentos eram fielmente os mesmos, e entendiam-se tanto nos prazeres como nas dores mais íntimas. - Não devo queixar-me; a desgraça da minha vida foi obra minha - acrescentou a jovem marquesa, erguendo para o céu os olhos cheios de lágrimas. - Milorde - interveio o general do seu posto, apontando com a mão -, foi aqui que nos encontramos pela primeira vez. Talvez já não se lembre! Olhe ali embaixo, junto daqueles choupos. O inglês respondeu com uma rápida inclinação de ombros. Eu devia morrer nova e infeliz - replicou Júlia. - Sim, não creia que eu viva. O desgosto será tão mortal como poderia ser a terrível doença de que me curou. Não me julgo culpada. Não, os sentimentos que engendrei por você são irresistíveis, eternos, mas bem involuntários, e eu quero conservar-me virtuosa. Contudo, serei ao mesmo tempo fiel à minha consciência de esposa, aos meus deveres de mãe e aos votos do meu coração. Ouça - acrescentou com a voz alterada -, nunca mais pertencerei àquele homem, nunca. - E com um gesto pavoroso de horror e de verdade designou o marido. - As leis do mundo - prosseguiu ela - exigem que lhe torne a existência feliz; obedecerei, serei sua serva, a minha dedicação a ele será sem limites, mas de hoje em diante serei viúva. Não quero me prostituir aos meus olhos nem aos do mundo; não serei do senhor d’Aiglemont nem de nenhum outro. Nada conseguirá de mim, milorde. Eis a sentença que proferi contra mim mesma - disse Júlia, fitando Artur com altivez. - É irrevogável, milorde. Deixe-me ainda dizer-lhe que, se o senhor cedesse a um pensamento criminoso, a viúva do senhor d’Aiglemont entraria para um convento, ou na Itália ou na Espanha. Quis a fatalidade que falássemos do nosso amor. Esta confissão era talvez inevitável; mas que seja pela derradeira vez que os nossos corações tenham vibrado tão fortemente. Amanhã fingirá ter recebido uma carta chamando-o à Inglaterra, e nos separaremos para sempre. Entretanto, Júlia, exausta por esse esforço, sentiu-se desfalecer, um frio mortal apoderou-se dela, e, por um pensamento bem feminino, sentou-se para não cair nos braços de Artur. - Júlia! - gritou lorde Grenville. O grito angustiante reboou como um trovão, O dilacerante clamor exprimiu tudo o que o amante, até ali mudo, não pudera dizer. - Que foi? Ouvindo-o, o marquês acudira apressado, e achou- se de súbito entre os dois amantes. - Não é nada - disse Júlia, com esse admirável sangue-frio que a sutileza natural das mulheres lhes permite mostrar nas grandes crises da vida. - O frescor deste nogueiral quase me fez perder os sentidos, e a cabeça. Meu doutor estremeceu de susto. Não sou eu para ele como uma obra de arte ainda por acabar? Tremeu, tal vez com medo de vê-la destruída... E tomou audaciosamente o braço de lorde Grenvilie. Sorriu ao marido, olhou a paisagem antes de abandonar o cume dos rochedos e arrastou seu companheiro de viagem, pegando-lhe na mão. - Eis, certamente, o lugar mais encantador que já visitamos - disse Júlia -; jamais o esquecerei. Veja, Victor, que extensão, que beleza e que variedade! Esta terra faz-me conceber o amor. Rindo em excesso, mas de modo a enganar o marido, saltou alegremente para o atalho e desapareceu. - Pois quê! Já?... - disse Júlia, quando se achou longe do senhor d’Aiglemont. - Daqui a um instante, meu amigo, não poderemos mais rir, e não seremos nunca mais nós mesmos; enfim, cessaremos de viver... - Vamos devagar - respondeu lorde Grenville -, as carruagens estão ainda longe. Caminharemos juntos, e se nos é permitido falar com os olhos, os nossos corações viverão um momento mais. Passearam no aterro à beira d’água, à última claridade, quase silenciosamente, trocando palavras vagas, doces como o murmúrio do Loire, mas que revolviam a alma. O sol, ao desaparecer no horizonte, envolveu-os nos seus reflexos vermelhos, imagem melancólica do seu fatal amor. Muito inquieto por não encontrar a carruagem no ponto em que a deixara, o general seguia ou precedia os dois amantes, sem imiscuir-se na sua conversação. O nobre e delicado procedimento de lorde Grenville durante a viagem destruíra as suspeitas de uma vez, e havia algum tempo deixava plena liberdade à mulher, fiado na fé do lorde doutor. Artur e Júlia seguiam ainda no triste e doloroso acordo dos seus corações emurchecidos. Há pouco, quando subiam pelas escarpas de Montcontour, sentiam ambos uma vaga esperança, uma felicidade inquieta que não ousavam definir; mas, descendo à margem do rio, haviam derrubado o frágil edifício construído na sua imaginação e sobre o qual nem ousavam respirar, semelhantes às crianças que prevêem a queda dos castelos de cartas que ergueram. Não lhes restava a menor esperança. Nessa mesma noite, lorde Grenville partiu. O último olhar que lançou a Júlia provou desgraçadamente que, desde o momento em que a simpatia lhes revelara a extensão de uma paixão tão forte, tivera razão em desconfiar de si próprio. Quando o marquês d’Aiglemont e sua mulher se acharam, no dia seguinte, sentados na carruagem, sem seu companheiro de viagem, e percorreram com rapidez a estrada por onde, em 1814, passara a marquesa, então ignorante do amor e quase lhe amaldiçoando a constância, ela reencontrou mil impressões esquecidas. O coração também tem sua memória. Há mulheres incapazes de se lembrar dos mais graves acontecimentos e que se recordarão durante toda sua vida de fatos que dizem respeito aos seus sentimentos. Júlia teve uma perfeita reminiscência das menores particularidades, recordou com prazer os mais ligeiros incidentes da sua primeira viagem e até os pensamentos que lhe haviam ocorrido em certos pontos da estrada. Victor, novamente apaixonado pela mulher desde que ela recuperara o viço da mocidade e toda a sua beleza, quis beijá-la; Júlia, porém, afastou-se brandamente e encontrou não sei que pretexto para evitar a inocente carícia. Dali a pouco causou-lhe horror o contato de Victor, e para evitar o calor do seu corpo quis passarão assento da frente para estar só, mas o marido tomou esse lugar. Júlia agradeceu-lhe aquela atenção com um suspiro que o enganou, e esse antigo sedutor de caserna, interpretando a seu favor a melancolia da esposa, obrigou-a nessa mesma noite a falar-lhe, com uma firmeza que o subjugou. - Meu amigo - disse ela -, como sabe, quase me matou. Se eu ainda fosse uma jovem inexperiente, poderia recomeçar o sacrifício da minha vida; porém, sou mãe, tenho uma filha para educar, e devo-me tanto a uma como a outro. Soframos uma desgraça que nos atinge igualmente. Tem menos a lastimar do que eu. Não soube já encontrar consolações que o meu dever, a nossa honra comum e, melhor do que tudo isso, a natureza proíbem? Olhe - ajuntou ela -, esqueceu numa gaveta três cartas da senhora de Sérizy, ei-las. O meu silêncio prova-lhe que tem em mim uma mulher cheia de indulgência e que não lhe exige os sacrifícios a que as leis a condenam; mas tenho refletido bastante para compreender que os nossos papéis não são idênticos, e que só a mulher está predestinada à desgraça. A minha virtude repousa sobre princípios determinados e fixos. Saberei ter uma vida irrepreensível, mas deixe-me viver. O marquês, aturdido pela lógica que as mulheres sabem estudar à luz do amor, ficou subjugado pela espécie de dignidade que lhes é natural em tais crises. A repulsão instintiva que Júlia manifestava por tudo o que magoava seu amor e os votos do seu coração é uma das mais belas coisas da mulher e provém talvez de uma virtude natural que nem as leis nem a civilização jamais conseguirão destruir. Mas quem ousaria censurá-las? Quando elas impuseram silêncio ao sentimento exclusivo que não lhes permite pertencer a dois homens, não são como padres sem crença? Se alguns espíritos austeros censuram a espécie de transação concluída por Júlia entre os seus deveres e o seu amor, as almas apaixonadas farão disso um crime. Essa reprovação geral acusa ou a infelicidade que aguarda as desobediências às leis, ou então tristíssimas imperfeições nas instituições sobre as quais repousa a sociedade européia. Dois anos se passaram, durante os quais o senhor e a senhora d’Aiglemont viveram como é de praxe na sociedade, indo cada um para o seu lado, encontrando-se mais vezes nos salões que em sua própria casa; elegante divórcio pelo qual terminam muitos casamentos na alta roda. Uma noite, por milagre, os dois esposos achavam-se reunidos no seu salão. A senhora d’Aiglemont recebera uma das suas amigas para jantar. O general, que jantava sempre na cidade, por esse motivo ficara em casa. - Vai ficar muito contente, senhora marquesa - disse o senhor d’Aiglemont, pondo sobre a mesa a xícara em que bebera o café. O marquês olhou para a senhora de Wimphen de um jeito entre malicioso e triste e acrescentou: - Vou partir para uma longa caçada, na qual acompanho o monteiro-mor. Durante oito dias, pelo menos, estará completamente viúva e é o que deseja, creio eu... Guilherme - disse ao criado que apareceu para apanhar as xícaras -, mande atrelar. A senhora de Wimphen era aquela Luísa a quem a senhora d’Aiglemont quisera, outrora, aconselhar o celibato. As duas mulheres trocaram um olhar de inteligência, que provava que Júlia tinha achado na amiga uma confidente dos seus sofrimentos, confidente preciosa e caritativa, porque a senhora de Wimphen era muito feliz com o marido; e, na situação oposta em que se encontravam, talvez a felicidade de uma fosse garantia da sua dedicação à desgraça da outra. Num caso desses, a dessemelhança dos destinos é quase sempre um poderoso vínculo de amizade. - Está no tempo da caça? - perguntou Júlia, lançando um olhar indiferente ao marido. Estava-se no fim do mês de março. - O monteiro-mor caça quando e onde quer. Vamos para as florestas reais caçar javalis. - Tome cuidado, que não lhe suceda algum acidente... - Uma desgraça é sempre imprevista - replicou Victor sorrindo. - A carruagem do senhor marquês está pronta - disse Guilherme. O general ergueu-se, beijou a mão da senhora de Wimphen e voltou-se para Júlia. - Se eu morresse vítima de um javali!... - disse num tom de súplica. - Que significa isto? - perguntou a senhora de Wimphen. - Aproxime-se - disse a senhora d’Aiglemont a Victor. Depois, sorriu como para dizer a Luísa: - Você vai ver. Júlia ofereceu o pescoço ao marido, que se adiantou para beijá-la; mas inclinou-se de tal modo que o beijo conjugal resvalou pela gola da capa. - Pode ser testemunha perante Deus - disse o marquês, dirigindo-se à senhora de Wimphen - de que necessito de um amuleto para obter este pequeno favor. Eis como minha mulher compreende o amor. Levou-me a isto nem sei por que artifícios... Boa noite! E saiu. - Mas o seu pobre marido é deveras bom - exclamou Luísa, logo que se acharam sós. - Ele a ama. - Oh! Não acrescente uma sílaba a essa última palavra. O nome que uso me horroriza... - Sim, mas Victor lhe obedece plenamente - retrucou Luísa. - A sua obediência - redargüiu Júlia - é em parte fundada na grande estima que lhe inspirei. Sou uma mulher deveras virtuosa segundo as leis: torno-lhe a casa agradável, fecho os olhos às suas aventuras amorosas, nada gasto da sua fortuna, ele pode dissipar os rendimentos à vontade, só tenho o cuidado de conservar o capital. A esse preço vivo em paz. Não compreende ou não quer compreender a minha existência. Mas, se dirijo assim meu marido, não é sem temer os efeitos do seu caráter. Sou como o domador de ursos que teme que um dia a focinheira se quebre. Se Victor julgasse ter o direito de não me estimar mais, eu não ouso pensar no que poderia acontecer; porque é violento, cheio de amor-próprio, de vaidade sobre tudo. Não tem espírito bastante sutil para tomar um partido sensato numa circunstância delicada em que as suas paixões más estejam em jogo; é fraco de caráter; me mataria talvez provisoriamente, pronto a morrer de desgosto no dia seguinte. Mas essa fatal felicidade não é para recear... Houve um momento de silêncio, durante o qual os pensamentos das duas amigas volveram para a causa secreta daquela situação. - Fui bem cruelmente obedecida - disse Júlia, lançando um olhar significativo a Luísa. - Todavia, não lhe tinha proibido que me escrevesse. Ah!, ele me esqueceu, e teve razão. Seria demasiado funesto que seu destino fosse despedaçado! Basta o meu! Acredite, minha querida, que leio os jornais ingleses na esperança unicamente de ali ver seu nome. Pois bem, ainda não compareceu à Câmara dos Lordes. - Você sabe inglês? - Não lhe disse que aprendi? - Pobre amiga - exclamou Luísa, apertando a mão de Júlia -, mas como você pode ainda viver? - Isso é um segredo - respondeu a marquesa, com gesto de simplicidade quase infantil. - Ouça. Tomo ópio... A história da duquesa de ..., em Londres, sugeriu-me essa idéia. Sabe, Mathurin escreveu sobre isso um romance. As gotas de láudano que tomo são muito fracas. Durmo. Só tenho sete horas de vigília, que consagro à minha filha... Luísa olhava o fogo, sem ousar contemplar a amiga, cujas desventuras acabava de ouvir pela primeira vez. - Luísa, guarde-me segredo - disse Júlia, passado um momento de silêncio. Nesse instante, entrava um criado com uma carta para a marquesa. - Ah! - exclamou ela, empalidecendo. - Não perguntarei de quem é - disse a senhora de Wimphen. A marquesa lia e nada ouvia; sua amiga observou-lhe no rosto, que mudava de cor a cada instante, os mais vivos sentimentos, a mais perigosa exaltação. Por fim Júlia atirou a carta ao fogo. - Esta carta é incendiária! Oh!, o coração me sufoca. Ergueu-se, andou de um lado para o outro; os olhos queimavam-lhe. - Não saiu de Paris! - exclamou ela. Sua fala entrecortada, que a senhora de Wimphen não ousou interromper, era pontuada por pausas assustadoras. A cada interrupção, as frases eram pronunciadas com um acento mais e mais profundo. As últimas palavras tinham qualquer coisa de terrível. - Jamais cessou de me ver, sem que eu soubesse. Um olhar dos meus surpreendido todos os dias dá-lhe a vida. Não sabe, Luísa? Está morrendo, e quer dizer-me o último adeus; sabe que meu marido se ausentou esta noite por alguns dias, e num momento estará aqui. Oh!, sinto-me perdida. Ouça!, fique comigo. Diante de duas mulheres, ele não ousará! Oh!, fique, tenho medo de mim. - Mas meu marido sabe que jantei em sua casa, e deve vir buscar-me. - Antes de você sair, o terei mandado embora. Serei o carrasco de nós dois. Mísera de mim! Julgará que deixei de amá-lo. E essa carta! Minha querida, contém frases que vejo escritas com letras de fogo. Ouviu-se o rodar de uma carruagem. - Ah! - exclamou a marquesa com certo júbilo -, ele vem publicamente e sem mistério. - Lorde Grenville! - anunciou o criado. A marquesa ficou de pé, imóvel. Vendo Artur pálido, magro e macilento, não havia severidade possível. Embora lorde Grenville tivesse ficado vivamente contrariado por não achar Júlia só, pareceu calmo e frio. Mas, para aquelas duas mulheres iniciadas nos mistérios do seu amor, seu modo, o som da sua voz, a expressão do seu olhar tinham um pouco dessa força atribuída ao peixe elétrico. A marquesa e a senhora de Wimphen ficaram como que entorpecidas pela viva comunicação de uma dor horrível. O som da voz de lorde Grenville fazia palpitar tão cruelmente a senhora d’Aiglemont que esta não ousava responder-lhe, com medo de lhe revelar a extensão do seu poder sobre ela; lorde Grenville não ousava fitar Júlia. De sorte que a senhora de Wimphen teve de fazer as honras de uma conversação sem interesse; lançando-lhe um olhar de profundo reconhecimento, Júlia agradeceu-lhe o auxílio que prestava. Então os dois amantes impuseram silêncio aos seus sentimentos e tiveram de se manter nos limites prescritos pelo dever e pelas conveniências. Daí a pouco, anunciaram o senhor de Wimphen; vendo-o entrar, as duas amigas trocaram um olhar e compreenderam, sem se falar, as novas dificuldades da situação. Era impossível pôr o senhor de Wimphen ao corrente daquele drama, e Luísa não podia apresentar razões plausíveis ao marido, pedindo-lhe para ficar em casa da sua amiga. Quando a senhora de Wimphen punha a capa, Júlia, fingindo ajudá-la, disse-lhe em voz baixa: - Terei coragem. Se veio publicamente à minha casa, que posso recear? Mas sem você no primeiro momento, vendo-o tão mudado, teria caído a seus pés. - Então, Artur, por que não me obedeceu? - perguntou a senhora d’Aiglemont com voz trêmula, voltando a sentar-se num pequeno sofá, no qual lorde Grenville não ousou tomar lugar. - Não pude resistir por mais tempo ao prazer de ouvir a sua voz, de estar junto de você. Era uma loucura, um delírio. Já não sou mais senhor de mim. Consultei-me bem. Estou muitíssimo fraco. Devo morrer. Porém, sem a ter visto, sem a ter ouvido, sem lhe secar as lágrimas, que morte! Quis afastar-se de Júlia, mas seu brusco movimento fez cair uma pistola da algibeira. A marquesa fitou a arma com um olhar que nem exprimia paixão nem qual quer pensamento. Lorde Grenville apanhou-a e mostrou-se fortemente contrariado por um incidente que podia passar por uma especulação de apaixonado. - Artur! - inquiriu Júlia. - Senhora - respondeu o rapaz, baixando os olhos -, vinha cheio de desespero, queria... Calou-se. - Queria matar-se em minha casa? - inquiriu Júlia. - Não sozinho - disse ele meigamente. - Então, meu marido, talvez? - Não, não - protestou Artur com a voz sufoca da. - Mas tranquilize-se, meu projeto fatal desvaneceu se. Quando entrei e a vi, senti então a coragem de me calar, de morrer só. Júlia ergueu-se, lançou-se nos braços de Artur, que, não obstante os soluços da amante, distinguiu suas palavras repletas de paixão. - Conhecer a suprema ventura e morrer... - disse ela. - Pois bem, seja! Toda a história de Júlia se continha nesse grito profundo, grito da natureza e do amor ao qual as mulheres sem religião sucumbem. Artur agarrou-a e levou-a para um sofá com a violência que se encontra numa felicidade inesperada. Mas, de súbito, a marquesa arrancou-se dos braços do amante, lançou-lhe o olhar fixo de uma mulher no auge do desespero, pegou-lhe na mão, tomou um castiçal, arrastou-o para seu quarto de dormir; depois, chegando junto ao leito onde Helena dormia, afastou brandamente as cortinas e descobriu a filha, pondo a mão diante da vela para que a luz não molestasse as pálpebras transparentes e mal-cerradas da criancinha. Helena tinha os braços abertos e sorria mesmo dormindo. Júlia, com um olhar, mostrou a criança a lorde Grenville. Esse olhar dizia tudo. - Um marido, nós podemos abandoná-lo ainda que ele nos ame. Um homem é um ser forte, pode encontrar consolações. Podemos desprezar as leis do mundo. Mas, uma criança sem mãe! Todos esses pensamentos e mil outros mais enternecedores ainda se mostravam naquele olhar. - Podemos levá-la - disse o inglês num murmúrio -; irei estimá-la verdadeiramente... - Mamãe! - chamou Helena, acordando. A essa palavra, Júlia desfez-se em lágrimas. Lorde Grenville sentou-se e permaneceu de braços cruzados, mudo e sombrio. Mamãe! Aquele apelo singelo e meigo despertou tantos sentimentos nobres e tantas simpatias irresistíveis, que o amor ficou por um momento esmagado sob a voz poderosa da maternidade. Júlia não era mulher, mas apenas mãe. Lorde Grenville não resistiu por mais tempo, as lágrimas de Júlia venceram-no. Nesse momento, uma porta aberta com violência fez grande ruído, e as palavras “Senhora d’Aiglemont, onde está?” ressoaram como o estampido do trovão no coração dos dois amantes. O marquês tinha voltado. Antes que Júlia pudesse recuperar o sangue frio, o general dirigia-se do seu quarto para o da esposa. Os aposentos eram contíguos. Felizmente Júlia fez um sinal a lorde Grenville, que correu para um quarto de vestir, cuja porta a marquesa fechou rapidamente. - Eis-me de volta - disse Victor. - A caçada não se efetua. Vou deitar-me. - Boa noite - volveu Júlia -, vou fazer o mesmo. Deixe-me, portanto, me despir. - Está muito aborrecida esta noite. Obedeço-lhe, senhora marquesa. O general dirigiu-se para seu quarto. Júlia acompanhou-o, a fim de fechar a porta de comunicação, e correu a libertar lorde Grenville. Havia readquirido toda a sua presença de espírito, e pensou que a visita do seu antigo médico era bem natural; podia tê-lo deixado no salão para ir deitar a filha, ia dizer-lhe que se dirigisse para lá sem fazer ruído; mas quando abriu a porta soltou um grito lancinante. Os dedos de lorde Grenville tinham ficado entalados e esmagados na ranhura da porta. - Que tem? perguntou o marido. - Nada, nada - respondeu Júlia. - Piquei o dedo com um alfinete. A porta de comunicação reabriu-se de repente. A marquesa julgou que o marido vinha com interesse nela e amaldiçoou aquela solicitude em que o coração não tomava parte. Mal teve tempo de fechar a porta do quarto de vestir, e lorde Grenville ainda não havia conseguido retirar a mão. O general reapareceu de fato; mas a marquesa enganava-se, era o seu próprio interesse que o levava ali. - Você pode me emprestar um lenço de seda? O patife do Carlos não deixou nenhum na gaveta. Nos primeiros dias do nosso casamento, você se ocupava das minhas coisas com um cuidado tão minucioso que chegava a aborrecer-me. Ah! A lua-de-mel não durou muito para mim nem para as minhas gravatas. Agora estou entregue ao braço secular dos criados que zombam de mim. - Aqui está um lenço. Não entrou no salão? - Não. - Talvez ainda tivesse encontrado lá lorde Grenville. - Está em Paris? - Aparentemente. - Oh! Vou já... ver esse excelente médico... - Talvez já se tenha retirado - disse Júlia. O marquês achava-se nesse momento no meio do quarto da mulher e cobria a cabeça com o lenço, olhando satisfeito para o espelho. --Não sei onde estão os criados - disse ele. - Já toquei três vezes para chamar o Carlos, e não apareceu. E a sua criada, onde está? Chame-a; quero outro cobertor na cama. - Paulina saiu - respondeu secamente a marquesa - À meia-noite! - tornou o general. - Dei-lhe licença para ir à ópera. - É singular! - replicou o marido despindo-se. - Pareceu-me vê-la subindo a escada. - É possível que tenha voltado - disse Júlia, fingindo-se impaciente. Para não despertar as suspeitas do marido, puxou o cordão da campainha, mas muito de mansinho. Os acontecimentos dessa noite não foram todos perfeitamente conhecidos; mas deviam ter sido tão simples, tão horríveis como são os incidentes vulgares que precedem. No dia seguinte, a Marquesa d’Aiglemont viu-se obrigada a ficar de cama. - Que aconteceu de tão extraordinário em sua casa para que toda a gente fale de sua mulher? - perguntou o senhor de Ronqueroiles ao marquês d’Aiglemont, alguns dias depois daquela noite catastrófica. - Faça o que lhe digo, fique solteiro - replicou o senhor d’Aiglemont. - Os cortinados do leito onde dormia Helena pegaram fogo; minha mulher sofreu um tal abalo que está doente para um ano, diz o médico. Desposa-se uma moça bonita, torna-se feia; desposa- se uma jovem cheia de saúde, adoece; julgamo-la apaixonada, ela é fria; ou então, se é fria na aparência, é realmente tão ardente que nos mata ou nos desonra. Ora a criatura mais meiga torna-se caprichosa, ora a jovem que se imagina ingênua e fraca desenvolve contra nós uma vontade de ferro, um espírito demoníaco. Estou farto do casamento. - Ou de sua mulher. - Isso seria difícil. A propósito, você quer ir comigo a São Tomás d’Aquino assistir ao enterro de lorde Grenville? - Estranho passatempo. Mas - tornou Ronquerolies -, sabe-se afinal a causa da sua morte? - O seu criado particular pretende que passou uma noite inteira numa janela para salvar a honra da amante; e tem feito um frio diabólico estes dias! - Essa dedicação seria muito estimável num finório como nós; mas lorde Grenville era novo e... inglês. Esses ingleses gostam sempre é de se singularizar. - Ora! - acudiu d’Aiglemont -, esses rasgos de heroísmo dependem da mulher que os inspira, e não foi certamente por causa da minha que esse pobre Artur morreu!